Poetas de Marte

Passarinhos em grandes ninhos ocupam as árvores altas
Cantam
Um louco no celular caminha atordoado
Do outro lado, vem um marginal
Um skatista de braços tatuados atravessa a rua
Um homem enorme e obeso, seminu, esconde a cara embaixo de um boné

Uma estagiária se apressa para uma entrevista em outro emprego
Uma loira de meia idade, de terninho nesse calor

Um pipoqueiro empurra seu carrinho

Duas moças conversam
Seguem a passos curtos e rápidos
Uma delas é a louca que discute com o louco
Ela não está no celular
Se cruzam e não percebem
Ele segue discutindo
Escreve: tu é uma puta

Na passarela, entre os prédios do Ministério Público, um homem de gravata observa o rio

Uma tarrafa é arremessada no arroio
Os peixes insistem em nadar na água podre
Hoje vai ter sushi

Debaixo da ponte, um cachorro corre atrás de um rato
Seu dono observa e torce
Pega
Pega

Uma carro conversível, não sei o modelo, passa por cima

Nem parece que é inverno

foto: Leonel Albuquerque

frio no coração

um vento forte bate na nuca
minhas orelhas coitadas parecem congeladas
eta inverninho do capeta ja é setembro e tu insiste em nao ir embora

algumas coisas funcionam nesses dias polares
whisky cafe vinho cerveja pizza estufa e cobertor
o charme da estaçao gelada

glamur de uma figa
tudo é bonito ate a hora de acorda
temperatura negativa o menino la debaixo fica com tamanho diminuto
faz mal pra auto estima

e as mulheres
sim muito bem vestidas elegantes charmosas
porem vestidas

camadas e camadas de roupas de um lado e de outro meia calça rasgada e por fim patifaria

uma menina libertaria que eu vi no onibus nao tinha pra onde ir
o contraste da cama gelada com o corpo quente
todo aquele guarda roupa ambulante atirado no chao

os corpos esprimidos se aquecendo
se esfregando
é bom esse frio ate nos da mais folego

– e depois daqui tu vai pra onde
– pra casa de outro homem

ela é direta
na verdade uma casada viciada em trair
me deixou adicto e jogado fora

naquele dia finalmente ficou quente
e eu senti saudades do inverno

inverno na bahia

um dia o sol escaldante deu lugar a um vento cortante e temperatura baixa quase polartica e a bahia se transforma em islandia por 24 hora

nao porque tivesse show de siguros ou biorjk apenas porque pela primera vez na historia do estado fez inimaginaveis 15 grau

os termometros baiano entraram em colapso nao conseguiam marca um numero tao baixo as ruas ficaram vazias foi decretado feriado nacional na bahia em decorrencia do perigo que era sai na rua mas brasilero é um povo guerrero e muita gente nao fez cara feia e foi pra rua

nao existe casacos na bahia as pessoas se enrolavam em redes matavam seus caes e gatos pra se protege com a pele saiam na savana pra caça urso e pode fabrica um casaco de pele artezanal e por um dia o acaraje deu lugar ao fundue

os mares congelaram as igrejas soltavam sinal de fumaça pedindo ajuda a deus e todos os santos o sol emanava enviando ondas de terror um desespero ja tomava conta da populaçao

os mais antigo dizia nunca ter visto nada parecido e ja se perdia a esperança na vida humana animais todos ja havia sido abatido

entao chego a noite congelando almas destruindo sonhos assasinando planos foi tudo ficando cada vez pior estrelas pareciam flocos de neve alias muita gente dizia que estava nevando apesar de nunca comprovado

na manha seguinte ja fazia 40 graus e tudo volta a normalidade