o ultimo drink

tomo um gole da bebida servida no meu copo
respiro

damos risadas muitas risadas
lembramos casos absurdos coisas que nem o mais louco teria coragem de inventar
historias tao mal contadas que so podem ser verdades
que sao obra de alguma graça divina que nos colocou no mesmo caminho
obrigado senhor

assistimos videos
eles sao toscos e deprimentes
registros de ontem de 5 e de 10 anos atras
devem ter outros ainda mais antigos escondidos
as fotos nem sei onde estao guardadas
eu gravo nossa conversa para que ela nunca acabe

meu semblante sereno e minha fala mansa escondem o desespero que toma conta do meu corpo
o formigamento nas maos o frio que sinto na espinha

daqui a pouco eu nao vou estar mais aqui
vou caminhar lentamente pela calçada molhada
se tiver sorte escaparei da chuva
sao apenas alguns passos ate o meu predio
tao pertinho desse onde ja morei tambem

a diferença é que depois de hoje eu ficarei sozinho
nao por um dia uma semana ou ate um semestre
sabe se la por quanto tempo vai ser

sempre achei que era viciado nessa rua
nessa vizinhança
ja tentei sair mas sempre acabo voltando

finalmente me dei conta que não é o lugar
nao sao os bares
nao é o movimento de gente
nao sao as festas que nunca mais fui
nao é nada disso

é meu amigo
meu melhor amigo
que esta indo embora

deserto

caminhava por um deserto escaldante na companhia das minhas sandalias eu sempre odiei sandalias e me odiava por usalas naquele momento mas era a unica maneira de sobreviver sem queimar os pes ou enchelos de bolhas que se transformavam em feridas abertas e em pouco tempo os pes ficam tao podres que é melhor nao telos

eu nao sei como vim parar aqui

esse é o primero ponto e agora nao tem importancia alguma a unica coisa que quero é conseguir sair eu olho pro sol e tento me guiar por ele mas nao entendo nada dessas coisas e torço pra cair logo a noite pra chegar o frio e acabar com minhas alucinaçoes

hoje mais cedo eu avistei de longe um camelo e um senhor nao tenho ideia se era jovem ou velho e nem se era mesmo um homem mas uma pessoa e um camelo isso eu tenho certeza que vi e eu gritei socorro e eu gritei me ajuda gritei tambem em ingles e em todos os idiomas que eu sei dizer socorro e ajude mas nem o camelo nem o senhor me olharam eles continuaram caminhando lentamente longe de mim longe demais pra me ouvir e longe demais para eu alcançalos

o camelo sabe das coisas eu vou é atras deles eu pensei e ate tentei seguir seus passos mas entao uma tempestade de areia bateu e tudo sumiu eu me atirei no chao e quase fui soterrado

eu nao sei a quantos dias eu caminho e nem como ainda to vivo sem agua sem comida sem direçao

eu ja pensei em desistir algumas vezes e eu ja tentei desistir outras tantas mas entao alguma coisa dentro da minha cabeça diz sai daqui cara e eu me levanto e continuo afundando o pe na areia ja deixei minha mochila so carrego a roupa do corpo e um fio de esperança de achar agua ou de encontra uns nativos que me ajudem a sair daqui

vejo de longe arvores parecem coqueiros aquela visao cliche de uma alucinaçao é tao cliche que deve ser verdade entao eu acelero o passo ou algo parecido com isso e vou naquela direçao mas quanto mais eu caminho parece ficar mais longe ate que desaparece e eu olho pra todos os lados e so vejo montes e montes de areia

caio no chao

acordo no susto balançando acordo e estou dentro de uma gaiola puxado por um camelo e tem duas pessoas comigo todas com cara de dor e sofrimento assim como eu tambem devo estar

eles nao falam minha lingua nem nada quando eu tento puxar conversa um homem abre a boca e eu vejo que ele nao tem lingua alguma ele nao vai conseguir falar entao eu abro bem meus olhos pra ver o outro e noto que ele nao tem olhos

coloco minhas maos do lado da cabeça e percebo que minhas orelhas sumiram e percebo que nao escuto nada nem o vento tambem percebo que estou com o pescoço acorrentado e prefiria estar morto

o camelo caminha devagar ele nao tem pressa o senhor ao lado dele quem sabe aquele mesmo que eu vi antes usa um turbante ja gasto e tem um rosto muito feio cheio de cicatrizes ele ve que eu estou olhando atentamente pra ele e puxa uma faca enorme do bolso vem ate a gaiola chega bem perto de mim e fala e fala e fala

eu vejo que ele mexe a boca mas sera que ele nao entendeu que agora eu sou surdo provavelmente ele mesmo arrancou minhas orelhas que tipo de ser humano babaca é ele eu me agarro na grade e começo a fazer força como se fosse possivel quebrala como se fosse possivel fugir de tudo isso e voltar pra beira da praia