Descoberta do Sol

Sempre que chovia muito Diba saía para caminhar, quando chovia pouco também.

Sentia a natureza, sentia-se parte. Pulava nas poças, puxava os galhos e mergulhava na grama.

Guarda-chuva não era com ela, tão sem graça. Se recusava a usar, até que no seu aniversário de 9 anos um menino que ela gostava tanto deu-lhe um lindo, amarelo, reluzente feito o Sol.

Diba deu uma chance e viu que também gostava de caminhar na chuva usando seu novo presente.

Em um desses dias, saiu a caminhar na companhia do Pingo. Tudo ia bem até virarem na esquina, momento em que subitamente parou de chover. Perderam-se. Pingo, serelepe, nunca havia ido tão longe com suas próprias pernas e, mesmo cansado, só queria andar mais. Diba nada reconhecia e, sem saber, se levava para o longe.

Nem se deram por conta quando se encurralaram em um beco, cercados por um grupo de cachorros.

“O que que as gracinhas fazem aqui nas minhas bandas?”, perguntou o chefe, um
imponente pastor alemão. “A gente só quer voltar pra casa”, respondeu Diba. Um grande fila, que parecia o resultado de um cruzamento com uma hiena, se intrometeu no caso, “Pode deixar que eu tomo conta deles”.

Pingo, valente, latiu, avançou e se postou em frente à Diba. “Ninguém mexe com ela”, disse o vira-lata. Um enorme doberman, com suas orelhas apontadas, se aproximava. Um rottweiler fechava o cerco. De cima de uma lixeira, um gato observava a cena calado.

Em um impulso, Diba pensou, “O guarda-chuva!”, agarrou Pingo no colo e abriu seu pedaço de sol. Em um novo impulso, alçou voo. Primeiro, só olhou para cima, para as nuvens e para o céu. Então viu que os cachorros, as casas e as ruas iam ficando pequenininhos. Já estava lá em cima, bem alto, quando avistou a casa, a padaria, e apontou elas com o dedo. Abriu um sorriso.

Embalados pelo vento, surfaram as ondas do céu. Era como uma boa chuva ensolarada, só que sem se molhar.

Não tardou para aterrissarem. A família inteira esperava para dar um abraço.

Nesse dia, ao pisar na grama com os pés descalços, Diba descobriu que também gostava dos dias de sol.

imagem: Westend61/Getty Images

ARAPUCA

o limão é cortado e pilado, vai o açúcar, a cachaça e quatro pedras de gelo, a colheirinha mistura tudo, ele experimenta a caipira e alcança para os outros fazerem o mesmo e dizerem que tá bom, uma delícia, toma o copo de volta quando já beberam quase tudo e mata num golão

o tira gosto tá na mesa, os outros estão distraídos, pode ir em paz até a cozinha e completar o copo com cachaça, puxa o açúcar lá do fundinho e dá uma bicada, hmmm, tá melhor

é um dia especial, família reunida em um domingo de sol para descobrir que vem um nené, ainda segredo, apenas a mãe e o pai da criança e a mãe do pai da criança sabem e mantém sigilo

a barriga de sofia é, a olhos nus, uma barriga como todas as barrigas e ela não dá maiores sinais de se preocupar além da conta apesar de ser grávida de primeira viagem, sim, é verdade que recusou a caipirinha, nem provou, o que gerou desconfiança do seu ernesto, não a respeito de gravidez mas sobre o caráter da moça, quem é que recusa uma caipira em um dia como esse

o copo passa pelas mãos de todos e quando volta para seu dono é para não mais abandoná-lo, a terceira botada é cachaça pura, o limão vai pro lixo, o almoço quase pronto cheira bem, grande coisa, o filho aprendeu a assar, o apetite contudo não desperta, não, o que tem é sede

seus passos não são muito precisos, talvez a hora adequada de sentir dor no joelho e pegar a bengala, nunca mais foi o mesmo depois do acidente, maldito taxista

o churrasqueiro anuncia “tropa, pode sentar” e todos se aprontam rapidamente, é uma da tarde passada, querem comer, querem cerveja e querem dar uma cesteada, não sabem a boa ventura que lhes espera, não fazem ideia de que irão experimentar a euforia

faz tempo que não vê os irmãos, não lembra a última vez que os recebeu na sua casa, o próprio filho não os visita com frequência e todo esse excesso de cordialidade o incomoda, que dia para essa papagaiada em família, mais parece que a qualquer instante vão anunciar que ele tem uma doença fatal e que vieram se despedir, olha aqueles homens altos, desajeitados e solteirões, uma linhagem torta, pronta para acabar

sente-se tonto e espera que alguém tenha coragem de lhe contar, que seja dado o primeiro adeus ao mais amargurado dos botelho, o ignorante, o fracassado, mas, mas, mas um pai e não precisa de outro argumento

antes de se juntar aos esfomeados volta uma última vez à cozinha, enche o copo pela metade e, com a desculpa de ter ido buscar guardanapos, traz alguns consigo

o filho bate a carne e lhe lembra sua juventude, seu tempo de montar no cavalo, das invernadas, dos namoros e das prostitutas, há anos que não as visita, há anos que não visita a mulher

maravilha de maminha, o sangue escorre e as facas lasqueiam pedaços graúdos, se esbaldam, todos menos a norinha, que por hora só come salada e espera o espeto de vazio que virá mais passado

lurdes conhece os olhos de bêbado do marido e lhe serve água, ele faz uma cara de desentendido e ela diz “toma”, se irrita com sua jogada de ombros mais do que com o estado alcoolizado

ele pensa que eu sou burra, que eu sou cega, será que nem hoje vai me respeitar

ernesto também fica irritado, não precisa de água, vai comer mais um pedaço de carne e voltar à cozinha e depois vai para seu quarto e que todos se explodam, fiquem à vontade que eu vou dormir, mas façam silêncio, parem de dar risada e tilintar os copos

são egoístas, ficarão ainda muito tempo atazanando sua vida, uma companhia que ele não quer e não sente falta, que ideia idiota do augusto, da próxima vez que quiser reunir esses bunda moles que faça na sua casa

não aguenta mais e levanta, o filho pergunta “pai” e ele diz que vai usar o banheiro, vai até a cozinha e enche o copo que lhe espera com caninha pura, ahhhh, bebe, lambe os beiços e escuta alguém se aproximando, puta que pario lurdes me deixa em paz, já tem tudo na ponta da língua mas ela não diz nada e se recusa a ouvir, pega sua mão, enche um copo d’água e diz pra ele vir

sabe esconder o seu ódio muito bem, dentro daquele rosto plácido há ódio e ganas de lhe mandar à merda, de renunciar seu direito de ser avô, de uma vez por todas deixá-lo

sabe que não é a hora de fazer isso, não pode anunciar o que vive com otacílio há mais de dois anos e o inútil do ernesto só bebe e não consegue desconfiar de nada

voltam à mesa e todos parecem terem terminado, é hora da sobremesa, antes que lurdes saia para buscar a torta e o sorvete augusto se levanta e começa a falar como lembra de churrascos como esse há vinte e poucos anos atrás na casa do vovô, fala da família que ele ama e da mãe, do pai, do tio dirceu e do tio ildo, do finado vô, da finada tia olga, dona lurdes não consegue mais segurar o choro, augusto fala também do falecido cachorro lisca e olha para sofia e fala da sofia, da primeira vez que se viram na biblioteca da faculdade e de quando ele teve coragem de convidá-la pra sair e ela disse que não podia mais tarde e ele perguntou e agora e eles mataram aula e depois disso quase namoraram, ele foi morar na austrália, não se falaram mais, nesse meio tempo seu amor perdeu os pais, nessa faz uma pausa e retoma dizendo que o que importa é eles se reencontraram e o destino guardou um presente, ele olha pra ela de novo, seu ernesto está impaciente, lurdes soluça

a gente
tá esperando
um bebê

os copos vão para o alto, se batem e são esvaziados, urros de alegria, abraços, seu ernesto não acredita, olha para a mulher e entende que ela já sabia, por que ele não sabia, dirceu e ildo se seguram pelas bochechas, augusto e sofia se beijam

ernesto se concentra um bocado para conseguir dizer “isso merece um brinde” e toma um chute nas canelas, “merece mesmo” e vai buscar a garrafa, todos concordam em tomar pinga, menos sofia, amor de sofia, milagre sofia

a alegria que tomou conta do ernesto alivia a raiva de lurdes, mas de adianta alegria agora e nada mais depois, um homem que não serve pra nada, um homem que não é um homem, seus irmãos ao menos não se acorrentaram em ninguém, o filho sim, como pode ter saído desse entulho, claro, saiu dela, mas tem também algum quê de ernesto quando ernesto não era isso, quem sabe o netinho mude as coisas, quem sabe eles voltem a sorrir e se tocar e ela não precise mais visitar otacílio, quem sabe algo parecido com amor volta a acontecer

a vida é uma arapuca

so nao me diga que faltaram orgias

voce conhece ela provavelmente estao bebados se ainda nao estao no proximo encontro estarao voce sente que ela é legal voce sente paixao voce ama voce fica nervoso pra encontra ela e conta o tempo pra pode ve ela e ate se arruma pra ve ela voces se amam e ocasionalmente namoram e continuam se amando e talvez se casem algum dia ou fiquem juntos pra sempre

pra sempre ate que chega aquele fatidico dia em que um nao suporta mais o outro um é grossero com o outro um nao faz nenhuma questao de agrada o outro e na verdade parece se esforça pra ser escroto voces se odeiam e nao sabem como termina a relaçao a dexam ela continua por medo de dar um fim voces sao dependentes da infelicidade que criaram e vao seguindo a vida ate que alguem um dia toma uma atitude e termina com o relacionamento

nao vale a pena discuti o que ja ta morto a tanto tempo e é imbecil imputa a culpa em alguem o fato é que voces pouco tranza e quando tranza é uma coisa insosa protocolar bate uma saudade da putaria e como remedio pro relacionamento doses cavalares de sexo em grupo começam a faze parte da rotina um dia tem uma loira na sua cama no outro tem um moreno na sala esperando pra come sua mulher mas tudo bem que na cozinha tem uma peituda esperando pelo coito e por que nao todos transam entre si e mais pessoas continuam a chega na casa

nao é mais apenas em casa voces vao toma um cafe e se trancam no banhero com mais tres pessoas voces vao no supermercado e tranzam no estacionamento com mais um grupo que nem sabe de quantos voces vao no cinema e é uma suruba quando chegam em casa estao tranquilos maravilhados com a vida a relaçao esta novamente flamejando e ate um ‘eu te amo’ escapa da boca de alguem

maratonas e maratonas de sexo começam a consumi a maior parte da semana de voces as noites sao mal dormidas quem sao as pessoas que tranzam com voces na cama no sofa no box e ate mesmo pela cadera de praia que voces tem na sala e é motivo de orgulho pela resistencia as grandes corporacoes de arquitetura e mobilia voces tranzam vendo programas de decoraçao tranzam vendo futebol e tranzam ate enquanto dormem assistindo um filme

sexo

parece que ta tudo bem voce se sente um homem ela se sente uma mulher e entre as milhares de almas que participam da tranza voces formam um casal novamente com aquele mesmo brilho no olho de outrora com caricias e palavras de carinho voce faz questao ate de leva ela em um restaurante legal e pensa ate em pedi ela em casamento quem diria essa convencao secular lhe parece faze sentido no meio das milhares de orgias e chega o grande dia de faze o pedido

nao

ela nao quer casar nao é nada contra voce ela te ama apenas acha que nao é o momento e voce concorda talvez nao seja mesmo eu me precipitei talvez agente precise tranzar mais com mais pessoas

sim

é isso que voces fazem na praia embaixo de arvores no asfalto na grama em locais publicos escancarados e ja sao centenas de caiu na net do casal e dos outros que tranzam junto voces poderiam fatura milhoes com a industria pornografica mas preferem apenas o prazer parece que esta ficando cada vez melhor ate que um dia ela diz que ta cansada de voce do seu mau humor das suas manias da sua falta de dinhero e educaçao do seu egoismo da sua sujera da falta de companherismo da falta de conversa e agora esta tudo acabado

voce segura o choro e com olhos marejados nao perde a dignidade responde de peito estufado tudo bem mulher eu tambem ja tava cansado de ti acho que é melhor assim

ela vai saindo de fininho e voce se remoendo por dentro ela vai se afastando quando voce grita so nao me diga que faltaram orgias