o milagre

era um dia qualquer diria normal até que começou a chover não que chover seja algo anormal mas se você mora no meio do sertão pode ser um milagre 

no caso não estamos no sertão e chover é normal então era sim apenas um dia normal apesar da chuva e dos alagamentos das sujeiras nas calçadas e em volta dos bueiros entupidos as formigas morrendo afogadas e os sapos coaxando o barulho parece nascer de dentro do chão está por tudo “unhé” os sapos são eternos bebes 

até aqui seguia tudo normal não fosse a chuva dessa vez possuir uma carga tóxica que dizimou toda a humanidade e os demais animais no espaço de cinco minutos 

os sobreviventes do sertão estranharam a ausência dos homi de longe que não apareceram mais nos próximos dias e semanas ninguém trouxe mais nada para vender ou comprar mais pra vender alguém teria que tomar alguma providência a maioria das mercadorias estava acabando

seu josé muito cansado em casa ficava escutando o rádio que não pegava mais só aquele chiado chato as tv também tudo fora do ar seu amarildo pegou seu jegue e disse que se ia até a cidade nem que leve uma semana mas há de descobrir o que passou 

quando ele voltou chorando e pisou na terra seca custou encontrar força pra contar que só encontrou gente morta gente jogada no chão fedendo a podre ninguém entendeu nada dona marinalva adivinhou que era uma peste dona roxele pediu misericordia de deus sem saber que o milagre já estava feito

Descoberta do Sol

Sempre que chovia muito Diba saía para caminhar, quando chovia pouco também.

Sentia a natureza, sentia-se parte. Pulava nas poças, puxava os galhos e mergulhava na grama.

Guarda-chuva não era com ela, tão sem graça. Se recusava a usar, até que no seu aniversário de 9 anos um menino que ela gostava tanto deu-lhe um lindo, amarelo, reluzente feito o Sol.

Diba deu uma chance e viu que também gostava de caminhar na chuva usando seu novo presente.

Em um desses dias, saiu a caminhar na companhia do Pingo. Tudo ia bem até virarem na esquina, momento em que subitamente parou de chover. Perderam-se. Pingo, serelepe, nunca havia ido tão longe com suas próprias pernas e, mesmo cansado, só queria andar mais. Diba nada reconhecia e, sem saber, se levava para o longe.

Nem se deram por conta quando se encurralaram em um beco, cercados por um grupo de cachorros.

“O que que as gracinhas fazem aqui nas minhas bandas?”, perguntou o chefe, um
imponente pastor alemão. “A gente só quer voltar pra casa”, respondeu Diba. Um grande fila, que parecia o resultado de um cruzamento com uma hiena, se intrometeu no caso, “Pode deixar que eu tomo conta deles”.

Pingo, valente, latiu, avançou e se postou em frente à Diba. “Ninguém mexe com ela”, disse o vira-lata. Um enorme doberman, com suas orelhas apontadas, se aproximava. Um rottweiler fechava o cerco. De cima de uma lixeira, um gato observava a cena calado.

Em um impulso, Diba pensou, “O guarda-chuva!”, agarrou Pingo no colo e abriu seu pedaço de sol. Em um novo impulso, alçou voo. Primeiro, só olhou para cima, para as nuvens e para o céu. Então viu que os cachorros, as casas e as ruas iam ficando pequenininhos. Já estava lá em cima, bem alto, quando avistou a casa, a padaria, e apontou elas com o dedo. Abriu um sorriso.

Embalados pelo vento, surfaram as ondas do céu. Era como uma boa chuva ensolarada, só que sem se molhar.

Não tardou para aterrissarem. A família inteira esperava para dar um abraço.

Nesse dia, ao pisar na grama com os pés descalços, Diba descobriu que também gostava dos dias de sol.

imagem: Westend61/Getty Images