A SOLUÇÃO MAIS FÁCIL ERA

o brasil é o décimo país mais desigual no mundo
nossa educação básica está entre as piores
temos o orgulho de liderar o ranking mundial de homicídios

é preciso imediatamente
liberar a pena de morte no brasil
e armar o cidadão de bem

só uma guerra civil trará a paz

é preciso imediatamente
construir mais cemitérios
para que possamos
matar todos os brasileiros

alguns inocentes irão morrer
faz parte
eles já estão morrendo hoje
então adiantemos o trabalho

vamos fazer a faxina

mate o idiota que demora para acelerar quando a sinaleira fica verde
rastreie o mentecapto que te ligou por engano e acabe com sua vida
assassine o vizinho que apertou o botão errado no elevador aquela vez

quando te pedirem por favor
dê um tiro

com licença
uma facada

torture

não deixe as crianças escaparem
todos
absolutamente todos
devem ser contemplados
pelo genocídio

formemos o mais eficiente
grupo de extermínio
sem vaidades
sem conversas paralelas
um extermínio puro e completo

investir na morte
é investir no futuro

matemos todos
só assim haverá esperança

temos a chance de fazer algo incrível juntos
bora começar

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Poetas de Marte

Passarinhos em grandes ninhos ocupam as árvores altas
Cantam
Um louco no celular caminha atordoado
Do outro lado, vem um marginal
Um skatista de braços tatuados atravessa a rua
Um homem enorme e obeso, seminu, esconde a cara embaixo de um boné

Uma estagiária se apressa para uma entrevista em outro emprego
Uma loira de meia idade, de terninho nesse calor

Um pipoqueiro empurra seu carrinho

Duas moças conversam
Seguem a passos curtos e rápidos
Uma delas é a louca que discute com o louco
Ela não está no celular
Se cruzam e não percebem
Ele segue discutindo
Escreve: tu é uma puta

Na passarela, entre os prédios do Ministério Público, um homem de gravata observa o rio

Uma tarrafa é arremessada no arroio
Os peixes insistem em nadar na água podre
Hoje vai ter sushi

Debaixo da ponte, um cachorro corre atrás de um rato
Seu dono observa e torce
Pega
Pega

Uma carro conversível, não sei o modelo, passa por cima

Nem parece que é inverno

foto: Leonel Albuquerque

TRATADO SOBRE A REGENERAÇÃO DA RAÇA HUMANA

Não haveria guerras
Massacres
Ímpetos de conquistar o mundo e deixar os pobres morrerem de fome

As brigas com a família acabariam
As discussões inúteis
Os medos baratos
E as angústias tolas

O mau como se conhece parte de dentro do homem
E ele não mais existiria

Nem a raiva
O ódio
O descontrole emocional
O desespero infantil
Só porque tudo dá errado

Só porque nem tudo aconteceu
Como fantasiado
Sua estúpida e egoísta fantasia

Não haveria egoísmo
Prepotência
Orgulho
E patriotismo

Tampouco discursos tontos e inflamados
Seguidores de assassinos e salvadores dos bons costumes
Homem de bem e de mau
Mulheres que prestam ou não

Não teria espaço para o juízo de valores
Para os valores valerem mais
Do que o que vale de verdade

E quem sabe
As coisas dariam certo
E se não dessem
Não haveria problema

Se ao menos soubessem
Que só precisam
Boiar
Atrás da arrebentação

Fechar os olhos
E ouvir o som do mar
Respirar profunda e lentamente
Deixar-se levar

Deixar um sorriso nascer
E a mente límpida
Somente amar