Poetas de Marte

Passarinhos em grandes ninhos ocupam as árvores altas
Cantam
Um louco no celular caminha atordoado
Do outro lado, vem um marginal
Um skatista de braços tatuados atravessa a rua
Um homem enorme e obeso, seminu, esconde a cara embaixo de um boné

Uma estagiária se apressa para uma entrevista em outro emprego
Uma loira de meia idade, de terninho nesse calor

Um pipoqueiro empurra seu carrinho

Duas moças conversam
Seguem a passos curtos e rápidos
Uma delas é a louca que discute com o louco
Ela não está no celular
Se cruzam e não percebem
Ele segue discutindo
Escreve: tu é uma puta

Na passarela, entre os prédios do Ministério Público, um homem de gravata observa o rio

Uma tarrafa é arremessada no arroio
Os peixes insistem em nadar na água podre
Hoje vai ter sushi

Debaixo da ponte, um cachorro corre atrás de um rato
Seu dono observa e torce
Pega
Pega

Uma carro conversível, não sei o modelo, passa por cima

Nem parece que é inverno

foto: Leonel Albuquerque

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Tratado sobre o final da infância

Sobe em um balanço um garoto trajando calça de moletom. Não é qualquer calça de moletom, ela é cinza, já um tanto surrada e, o principal, tem uma joelheira de couro (ou sintético, mais provável) em cada perna.

Ah, a joelheira. Os carrinhos na quadra de futebol, no corredor, no polícia e ladrão e no pega-pega. Uma calça sem joelheira era uma calça rasgada, furada, queimada. Uma calça com joelheira é a coisa mais feia do mundo e também um item de segurança obrigatório nos EPIs da infância.

Fazia tempo que eu não via uma dessas. Tanto tempo que nem me lembrava mais que elas existiam. Assim como minha infância.

Não que eu esteja velho, amadurecido, gordo, acabado, meio careca, sentindo cansaço depois de qualquer caminhada e desfalecendo após uma breve corridinha. Nada disso. Eu apenas não recordava esses tempos de brincar sem preocupação e com joelheira.
Uma nostalgia barata bateu quando vi o garoto, que não faço ideia de quem seja. Não me vi nele, apenas lembrei que já fui assim. Esguio (muito magro) e até desengonçado, era difícil me parar, ainda mais quando deslizava apoiado nos joelhos. Como as joelheiras trabalharam depois daquele gol na Copa de 98 em que o cara da Dinamarca saiu fazendo pose. No outro dia todo mundo imitou. Volta e meia eu usava uma calça sem joelheira e não me dava conta, o resultado era um joelho ralado e uma calça estragada. Tinha que costurar (ou colocar joelheira).

Os tênis que piscam continuam na moda, mas esses são uma coisa infantil. Paramos de usar cedo, é só para criança. A calça com joelheira, por outro lado, era parte do uniforme – e pelo visto continua sendo. As mães gostam, pois duram bastante. Os pais, não sei se tem opinião – na minha época o meu não tinha, eu acho. Se bem que hoje em dia deve ser diferente. Meu filho ou minha filha vai usar calça com joelheira e eu vou ensinar a deslizar.

Tento, mas não consigo lembrar qual foi minha última calça dessas. Quando usei pela última vez. Será que a joelheira ficou toda gasta e teve que ir pro lixo ou eu, no auge da maturidade, disse que não queria mais? Qualquer coisa que eu digo vai ser pura invenção. Então escolho o final que mais me agrada: era final da interséries. Fazia frio, como era de se esperar no auge inverno. Clássico, nossa turma contra a 141, o jogo empatado em 1×1, se encaminhando para o fim. O juiz marcou falta para eles, um lance perigoso, e o Betinho se preparou para dar um bico. Nosso goleiro medroso fugiu da bola, que por sorte bateu na trave. O chute foi tão forte que a bola espirrou para frente. O André correu e conseguiu pegá-la antes que saísse pela lateral. Eu disparei para o ataque e fiquei pedindo bola. O André avançou, ultrapassou o meio da quadra e, já perto da área, cruzou. Muito forte, muito comprido, não tinha como alcançá-la. Era o último lance e acabaria empatado. A bola ia direto para fora e nada poderia detê-la, não fosse o meu carrinho. Me atirei e por breves segundos o mundo parou. Eu, a joelheira e a bola, que acertei com a pontinha do pé esquerdo, vivenciamos uma parábola que ainda ecoa naquele ginásio. Gol. A bola foi direto para o fundo da rede. Eu fiquei ainda um tempo deitado e quando levantei reparei que a joelheira estava rasgada. Os moleques corriam pela quadra para comemorar. É campeão, é campeão. Ganhamos. Feito. É campeão. Aquela joelheira hoje está emoldurada em uma parede do ginásio.

foto Hudson Pontes

Descoberta do Sol

Sempre que chovia muito Diba saía para caminhar, quando chovia pouco também.

Sentia a natureza, sentia-se parte. Pulava nas poças, puxava os galhos e mergulhava na grama.

Guarda-chuva não era com ela, tão sem graça. Se recusava a usar, até que no seu aniversário de 9 anos um menino que ela gostava tanto deu-lhe um lindo, amarelo, reluzente feito o Sol.

Diba deu uma chance e viu que também gostava de caminhar na chuva usando seu novo presente.

Em um desses dias, saiu a caminhar na companhia do Pingo. Tudo ia bem até virarem na esquina, momento em que subitamente parou de chover. Perderam-se. Pingo, serelepe, nunca havia ido tão longe com suas próprias pernas e, mesmo cansado, só queria andar mais. Diba nada reconhecia e, sem saber, se levava para o longe.

Nem se deram por conta quando se encurralaram em um beco, cercados por um grupo de cachorros.

“O que que as gracinhas fazem aqui nas minhas bandas?”, perguntou o chefe, um
imponente pastor alemão. “A gente só quer voltar pra casa”, respondeu Diba. Um grande fila, que parecia o resultado de um cruzamento com uma hiena, se intrometeu no caso, “Pode deixar que eu tomo conta deles”.

Pingo, valente, latiu, avançou e se postou em frente à Diba. “Ninguém mexe com ela”, disse o vira-lata. Um enorme doberman, com suas orelhas apontadas, se aproximava. Um rottweiler fechava o cerco. De cima de uma lixeira, um gato observava a cena calado.

Em um impulso, Diba pensou, “O guarda-chuva!”, agarrou Pingo no colo e abriu seu pedaço de sol. Em um novo impulso, alçou voo. Primeiro, só olhou para cima, para as nuvens e para o céu. Então viu que os cachorros, as casas e as ruas iam ficando pequenininhos. Já estava lá em cima, bem alto, quando avistou a casa, a padaria, e apontou elas com o dedo. Abriu um sorriso.

Embalados pelo vento, surfaram as ondas do céu. Era como uma boa chuva ensolarada, só que sem se molhar.

Não tardou para aterrissarem. A família inteira esperava para dar um abraço.

Nesse dia, ao pisar na grama com os pés descalços, Diba descobriu que também gostava dos dias de sol.

imagem: Westend61/Getty Images

FALAS DE MIM SEM EU

o olhar passa entre desolado, triste e indiferente, um olho grande que dá vontade de tocar

agora já passou há tempo e não posso fazer nada além de recordar e transfigurar sensações

deixe-me começar de uma vez

não me vi, era como se não estivesse ali, em meio ao rio barrento onde bois faziam as vezes do peixe-boi, pulavam dentro da água e atravessavam até a outra margem

eu fiquei no meio, acompanhando aqueles grandes bichos pra lá e pra cá, pra lá e pra lá, seus corpos eram mais do que estranhos, o chifre que saía de suas cabeças parecia mole, eles inteiros eram molengas

a água barrenta não tinha temperatura, o chão não tinha textura, os bois não faziam barulho

no instante seguinte eu já estava na minha cozinha, assim mesmo, sem explicação e sem contestação

novamente não eu mas minha presença

sentado na minúscula mesa o meu falecido pai, meu querido pai, saudades, queria um último abraço, um último grito de gol, um último momento feliz, até mesmo um tchau, o que temos no entanto é meu falecido pai querendo tomar café da manhã logo na minha casa, se tiver água na geladeira o senhor deve se alegrar, penso enquanto digito

acaba que não come, quer café e vejo uma pequena cafeteira, pequena e estranha, meu pai porém pega o pequeno pote de café iguaçu, uma colheirinha e sai a comê-lo puro, uma, duas, três colheradas e não é só café, vejo diretamente dentro do pote as larvas, os bichos podres, ele come tudo

não nos falamos, a bem da verdade nem sei se ele me viu

ele está igualzinho, usa óculos, uma camisa polo, o cabelo grisalho que ainda não é branco, não emagreceu nada desde que morreu

vou até a área de serviços, onde tenho algumas plantas, e encontro um vaso novo, baixinho e largo, a terra está estranha, não parece terra, parece um bolo, acho que é um bolo, não sinto cheiro, o que não chega a ser um privilégio do momento, é bolo ou terra, se for bolo podemos comer, se for terra talvez o pai coma igual, olho pra cozinha e não tem mais pai

vou colocar a mão na terra ou bolo para descobrir, vou esmagar com os dedos, vou sentir, vou, vou

hesito

onde estão os bois, onde está o pai

hesito

tem sol lá fora

hesito

hesito e não chego a descobrir

anoto para ver se acontece novamente, lembro e tento dar algum sentido, recorro a um texto e nada

da próxima vez tentarei me olhar no espelho

ARAPUCA

o limão é cortado e pilado, vai o açúcar, a cachaça e quatro pedras de gelo, a colheirinha mistura tudo, ele experimenta a caipira e alcança para os outros fazerem o mesmo e dizerem que tá bom, uma delícia, toma o copo de volta quando já beberam quase tudo e mata num golão

o tira gosto tá na mesa, os outros estão distraídos, pode ir em paz até a cozinha e completar o copo com cachaça, puxa o açúcar lá do fundinho e dá uma bicada, hmmm, tá melhor

é um dia especial, família reunida em um domingo de sol para descobrir que vem um nené, ainda segredo, apenas a mãe e o pai da criança e a mãe do pai da criança sabem e mantém sigilo

a barriga de sofia é, a olhos nus, uma barriga como todas as barrigas e ela não dá maiores sinais de se preocupar além da conta apesar de ser grávida de primeira viagem, sim, é verdade que recusou a caipirinha, nem provou, o que gerou desconfiança do seu ernesto, não a respeito de gravidez mas sobre o caráter da moça, quem é que recusa uma caipira em um dia como esse

o copo passa pelas mãos de todos e quando volta para seu dono é para não mais abandoná-lo, a terceira botada é cachaça pura, o limão vai pro lixo, o almoço quase pronto cheira bem, grande coisa, o filho aprendeu a assar, o apetite contudo não desperta, não, o que tem é sede

seus passos não são muito precisos, talvez a hora adequada de sentir dor no joelho e pegar a bengala, nunca mais foi o mesmo depois do acidente, maldito taxista

o churrasqueiro anuncia “tropa, pode sentar” e todos se aprontam rapidamente, é uma da tarde passada, querem comer, querem cerveja e querem dar uma cesteada, não sabem a boa ventura que lhes espera, não fazem ideia de que irão experimentar a euforia

faz tempo que não vê os irmãos, não lembra a última vez que os recebeu na sua casa, o próprio filho não os visita com frequência e todo esse excesso de cordialidade o incomoda, que dia para essa papagaiada em família, mais parece que a qualquer instante vão anunciar que ele tem uma doença fatal e que vieram se despedir, olha aqueles homens altos, desajeitados e solteirões, uma linhagem torta, pronta para acabar

sente-se tonto e espera que alguém tenha coragem de lhe contar, que seja dado o primeiro adeus ao mais amargurado dos botelho, o ignorante, o fracassado, mas, mas, mas um pai e não precisa de outro argumento

antes de se juntar aos esfomeados volta uma última vez à cozinha, enche o copo pela metade e, com a desculpa de ter ido buscar guardanapos, traz alguns consigo

o filho bate a carne e lhe lembra sua juventude, seu tempo de montar no cavalo, das invernadas, dos namoros e das prostitutas, há anos que não as visita, há anos que não visita a mulher

maravilha de maminha, o sangue escorre e as facas lasqueiam pedaços graúdos, se esbaldam, todos menos a norinha, que por hora só come salada e espera o espeto de vazio que virá mais passado

lurdes conhece os olhos de bêbado do marido e lhe serve água, ele faz uma cara de desentendido e ela diz “toma”, se irrita com sua jogada de ombros mais do que com o estado alcoolizado

ele pensa que eu sou burra, que eu sou cega, será que nem hoje vai me respeitar

ernesto também fica irritado, não precisa de água, vai comer mais um pedaço de carne e voltar à cozinha e depois vai para seu quarto e que todos se explodam, fiquem à vontade que eu vou dormir, mas façam silêncio, parem de dar risada e tilintar os copos

são egoístas, ficarão ainda muito tempo atazanando sua vida, uma companhia que ele não quer e não sente falta, que ideia idiota do augusto, da próxima vez que quiser reunir esses bunda moles que faça na sua casa

não aguenta mais e levanta, o filho pergunta “pai” e ele diz que vai usar o banheiro, vai até a cozinha e enche o copo que lhe espera com caninha pura, ahhhh, bebe, lambe os beiços e escuta alguém se aproximando, puta que pario lurdes me deixa em paz, já tem tudo na ponta da língua mas ela não diz nada e se recusa a ouvir, pega sua mão, enche um copo d’água e diz pra ele vir

sabe esconder o seu ódio muito bem, dentro daquele rosto plácido há ódio e ganas de lhe mandar à merda, de renunciar seu direito de ser avô, de uma vez por todas deixá-lo

sabe que não é a hora de fazer isso, não pode anunciar o que vive com otacílio há mais de dois anos e o inútil do ernesto só bebe e não consegue desconfiar de nada

voltam à mesa e todos parecem terem terminado, é hora da sobremesa, antes que lurdes saia para buscar a torta e o sorvete augusto se levanta e começa a falar como lembra de churrascos como esse há vinte e poucos anos atrás na casa do vovô, fala da família que ele ama e da mãe, do pai, do tio dirceu e do tio ildo, do finado vô, da finada tia olga, dona lurdes não consegue mais segurar o choro, augusto fala também do falecido cachorro lisca e olha para sofia e fala da sofia, da primeira vez que se viram na biblioteca da faculdade e de quando ele teve coragem de convidá-la pra sair e ela disse que não podia mais tarde e ele perguntou e agora e eles mataram aula e depois disso quase namoraram, ele foi morar na austrália, não se falaram mais, nesse meio tempo seu amor perdeu os pais, nessa faz uma pausa e retoma dizendo que o que importa é eles se reencontraram e o destino guardou um presente, ele olha pra ela de novo, seu ernesto está impaciente, lurdes soluça

a gente
tá esperando
um bebê

os copos vão para o alto, se batem e são esvaziados, urros de alegria, abraços, seu ernesto não acredita, olha para a mulher e entende que ela já sabia, por que ele não sabia, dirceu e ildo se seguram pelas bochechas, augusto e sofia se beijam

ernesto se concentra um bocado para conseguir dizer “isso merece um brinde” e toma um chute nas canelas, “merece mesmo” e vai buscar a garrafa, todos concordam em tomar pinga, menos sofia, amor de sofia, milagre sofia

a alegria que tomou conta do ernesto alivia a raiva de lurdes, mas de adianta alegria agora e nada mais depois, um homem que não serve pra nada, um homem que não é um homem, seus irmãos ao menos não se acorrentaram em ninguém, o filho sim, como pode ter saído desse entulho, claro, saiu dela, mas tem também algum quê de ernesto quando ernesto não era isso, quem sabe o netinho mude as coisas, quem sabe eles voltem a sorrir e se tocar e ela não precise mais visitar otacílio, quem sabe algo parecido com amor volta a acontecer

a vida é uma arapuca

soy celeste

chegamos ao chile em uma quarta o dia que os catedráticos da matemática consideram como o meio da semana

as primeiras horas foram promissoras o hostel era consumido por um budum talvez necessário para adormecer nas camas empilhadas fizemos nossas reservas para o mesmo quarto mas acabou que cada um teve que ficar separado sem problemas organizamos brevemente nossas coisas e nos encontramos no pátio para tomar cerveja comer pizza e assistir ao jogo do brasil no telão que havia sido instalado precariamente

assim que sentamos o brasil tomou um gol enquanto continuávamos a apreciar a gastronomia que nos era acessível o neymar entrava em colapso e encerrava seu expediente na copa américa

cansados nos preparamos para nos recolher fui para o meu quarto e sentei na cama

uma menina entrou e disse para o rapaz da cama debaixo

– hoje eu quero dormir contigo vou fazer tu me comer

uma segunda garota de peitos fartos que parecia ligada nos 220 volts surgiu perguntando quem queria ir pra festa pela primeira vez me manifestei para uma pessoa estranha e disse to dentro a menina que havia intimado o rapaz homossexual a possuí-la ficou envergonhada

– meu deus não imaginei que tu falasse português

pois falo e também sei me arrumar rápido quando desci meus amigos já estavam prontos e disseram que tinha uma festa sim é para lá que vamos

a festa acontecia em um velho teatro enorme e a entrada era de graça para mulheres e estrangeiros em resumo era o paraíso jamais voy a me olvidar do ritmo frenético das músicas cho cho chofer pare el taxi bailando bailando que foram basicamente as duas canções que embalaram a viagem nesse primeiro dia e em todos os outros fizemos como vidal e batemos a ferrari

tínhamos alguns objetivos o principal era disseminar a torcida organizada febre amarela uma iniciativa que surgiu já em território chileno e que se mostrou um verdadeiro sucesso pois ainda hoje passado mais de um ano amigos que lá fizemos usam a fatídica expressão em hashtags no seu instagram o outro propósito era difundir a expressão rootera algo que insistimos inclusive com falantes da língua inglesa

– rootera… from the nature… from the roots

nesse ponto acredito que não tivemos tanto êxito

desbravamos praticamente nada de santiago nos limitando ao bella vista e seus arredores nos intercalando entre três hostels que eram todos próximos ao cerro san cristobal um belíssimo monte que só fomos subir faltando aproximadamente poucas horas para partirmos

também deu tempo de conhecer valparaíso mi valpo querida inesquecível o espaço de chão mais rootera da viagem morada de gente amalucada e com ódio solene a santiasco não obstante era ainda terra de um prato típico que trocando em miúdos não passa de uma batata frita mal frita (não aprenderam com minha vó) molhada com queijo mal derretido e outras tranqueiras por cima

nosso quarto em valpo tinha um triliche e uma cama de casal chuliamos para que uma hermosa sueca dividisse o espaço com a gente mas o destino nos reservou carlitos no final das contas essa cigana que manda nas nossas vidas fez algo copero

na primeira festa aquela da quarta-feira havia uma tonelada de colombianos fazendo algazarra frente a vitória sobre o brasil os chilenos por óbvio estavam ensandecidos os argentinos lotaram o estádio sausalito onde também comparecemos para hinchar por nuestros hermanos de jamaica muitos brasileiros por tudo naqueles free walk tour descobrimos uma pilha de neozelandeses europeus e mais galerinha cool aqui e acolá haviam paraguaios y tambien mexicanos como nosso amigo michael que nos acompanhava no fatídico incidente

bebíamos na rua e uma viatura encostou e desceram ali carabineros armados até os dentes

– no se puede beber en la calle
– llegamos hoy no sabiamos
– brasilenos
– soy mexicano
– documientos

momentos de tensão

– pero esto no es calle – perguntou meu amigo apontando para pessoas que bebiam sentadas em um bar com cadeiras na rua
– si pero tienem permission

a essa altura nossa argumentação era invencível diferente do tigres time do coração do michael apaixonado por #10 gicnac e que depois da libertadores passou a torcer para o river plate vai entender esses caras

era lindo ver a confraternização das nações mas algo nos chamava a atenção onde estavam os uruguaios

assistimos a chile e uruguai o jogo do dedazzo do cavani no estádio nacional de santiago no primeiro tempo ficamos em meio aos chilenos e aceitamos o porro que nos foi oferecido por novos amigos de cara indigena mas no intervalo não nos aguentamos e descemos até o nível onde se encontravam os uruguaios eles não paravam um minuto faziam tanto barulho que deixaram os chilenos brabos mesmo que classificados antes do final do jogo a área foi isolada e sim ficamos lá presos junto aos cisplatinos sendo alvos de copos e outras besteiras atiradas pelos donos da casa

tivemos que esperar até o estádio ficar vazio para olha só que mundo pequeno sermos escoltados pelos carabineros até o metro

continuamos fazendo festa continuamos indo em bares e continuamos sem encontrar uruguaios que apesar de numerosos no estádio não davam as caras em nenhum outro lugar

já era quase véspera da nossa partida já havia se passado outra quarta com uma festa nos mesmos moldes da primeira só que dessa vez em uma velha fábrica abandonada a coisa só ficava melhor e fomos empolgados para mais uma noite de descontrole que demorava para ficar boa e o nos era dito o mesmo argumento de sempre

es muy temprano

nem ao menos chichichi lelele viva chile foi preferido nesse ambiente fugaz e infelizmente provamos o sabor do fracasso mas contudo porém entretanto existe aquele ditado e estávamos decididos a vivenciá-lo em nossas próprias peles eu sou brasileiro e não desisto nunca

juntamos um grupo composto por cariocas gaúchos e mineiros e perguntamos ao promoter da festa falhada se havia algum lugar para irmos

hay un after

o homem nos entregou cartões de visita e disse que com isso não pagaríamos entrada faltaram alguns pois segundo ele chicas no pagan

e lá fomos nós caminhando pelas ruas desertas em uma noite gélida com pouca roupa e dessa vez nem era possível infringir a lei pois não havia coisa alguma aberta para nos vender nada em determinado momento as meninas disseram que iriam para a casa – uma delas morava por lá – e quebraram em uma avenida nunca mais as vimos

seguimos com a esperança de que algo acalentador nos esperava quando chegamos próximo ao endereço todavia chegou a dar um frio na barriga

a festa parecia clandestina uma grande porta preta toda de ferro se abria furtivamente e as duas ou três pessoas da fila entravam espiadas onde diabos fomos nos meter a caminhada pela rua pareceu mais longa do que todo o restante da epopeia pois vacilávamos em avançar provavelmente esse era o ponto mais longe de bella vista que havíamos chegado bueno mesmo que tremendamente desconfiados decidimos que foda-se

abriram a porta

o segurança do outro lado não emanava um vibe positiva se é que você me entende e ele e seus companheiros fizeram cara feia para nossas cortesias queriam dar um jeito de nos arrancar dinheiro tiramos coragem sabe se lá de onde e batemos o pé ninguém iria desembolsar nada mas prometemos gastar em bebida lá em cima

aceitaram a derrota e nos mandaram entrar de vez

um corredor escuro nos conduzia até uma escada e a pouca roupa que eu usava já me fazia passar calor fui obrigado a tirar a camisa xadrez finalmente iniciamos a subida e cada degrau parecia levar para mais perto do inferno a umidade se mesclava a um abafamento absurdo e a expecativa para o que nos esperava lá em cima era assombrosa

foi pelo cheiro que ficou claro estávamos nada mais nada menos do que em um puteiro trash de quinta categoria sim a viagem não havia nos privado nem mesmo dessa experiência e só quando alcançamos o último lance e abrimos a porta é que irromparam os gritos dos apaixonados que tomavam seus tragos e rodeavam as poucas infelizes garotas

soy celeste
soy celeste
celeste soy yo

saida de emergencia

acordei atrasado

na verdade o despertador tocou na hora e eu botei mais uma duas vezes pra tocar de novo ate que eu tive que sair voando

botei a roupa de qualquer jeito lavei a cara nao comi nada

corri o corredor pra chamar o elevador que por sorte estava perto nao demorou como de costume abri a porta e entrei preocupado e com pressa quase nao notei o papagaio

nao havia nenhum andar marcado presumo que o animal nao saiba como fazer isso ou talvez seja culpa da gaiola pois ele esta preso calado no seu canto com um olhar acuado

apertei o terreo e instintivamente bati as maos no bolso e percebi que nao estava com o celular o meu deus como viver sem o celular tentei abrir a porta nao deu ja começava a descer apertei o 5 e o 4

nao sei se ele tomou um susto se estava perto demais do andar pra parar o fato é que o elevador nao respondeu bem e travou no meio do caminho forcei os pes contra o chao fazendo o movimento de empurrar mas nao adiantou nada a porta nao abria nao tinha como sair dali bati as maos na parede eu estava ficando nervoso

tentei o botao de emergencia mas nao tem microfone ligacao nao tem um jeito de falar com alguem de fora eu so tocava e fazia aquele apito bem alto eu nao tinha celular so tinha o papagaio

comecei a conversar com ele
acho que foi ele quem começou a conversar comigo

loro
oi
loro
loro

um breve silencio e ele retomou

a vó
oi loro
loro

eu nao sou a vó loro

ele começou a balançar ir pra frente e pra tras so a cabeça mexendo as patinhas bem paradas

han
han
han

eu falei loro vai ficar tudo bem

ahhn
ahhn
ahhn
ahhn
ahhn

caiu a luz

caiu a luz e o loro se remexia ainda mais na gaiola eu nao sei fazer o grunido ele nao tava a fim de conversa so do barulho chato alto insuportavel dentro do elevador ainda pior uma tortura pura

me arrependi da maldita hora em que eu respondi ou comecei a falar com esse papagaio

o elevador continuava trancado nao sei se dou um tapa na gaiola se eu grito com ele mas ai eu tenho a ideia sim o isquero no meu bolso aquela escuridao entre nos eu pego o isqueiro acendo e o papagaio se apavora e finalmente fica em silencio na hora é minha vez

escuta aqui loro a gente ta aqui na merda junto a tua vo se ela nao for uma idiota ela vai ver que esse elevador ta trancado se ela nao for estupida ela vai ter um celular no bolso e vai ligar pro zelador o que resta pra mim e pra ti loro é sofrer e esperar acreditar que alguem vai nos tirar daqui

ele nao responde nada apenas olha para o isqueiro na minha mao e eu continuo o meu discurso porra loro eu tinha uma reuniao importante devem ta ligando pro meu celular devem ta achando que eu sou um irreponsavel que eu sai pra beber ontem de noite que eu fiz arruaça loro a vida nao é facil e tu vive bastante que eu sei

tu nao fala muito tu ate sabe grita mas falar nao me diz o que tu faz da vida cara porque tu ta nesse elevador me fala

la
lalala
lalalala
la
lalala
la
lala

o loro começa a cantar uma melodia infantil graciosa é aquela musica brilha brilha estrelinha quero ver voce brilhar ele canta bem so fazendo la lalala lalalala la lalala la lala e aquilo me acalma eu sento no chao e acompanho ele

a chama do isquero ilumina a nossa cantoria eu e o loro e ninguem mais nesse mundo

lobo solitario

eu tinha 16 anos e finalmente o ultimo amigo solteiro começou a namorar que tempos dificeis eu vivi

um pouco antes disso achava que uma colega de aula gostava de mim eu era novo na turma e a professora nos colocou a sentar juntos nos demos bem agente passava o tempo todo conversando dando risada e ate quase nos beijamos uma vez ou talvez isso nunca aconteceu o fato é que na verdade ela tava afim era do meu amigo tambem nosso colega e se mudou de colegio junto comigo era o ultimo sobrevivente da tribo solteira

estranhei quando eles começaram a namorar porque foi assim de repente um belo dia estavam namorando nem ele nem ela me falaram nada achei estranho pois supostamente era amigo de ambos

me tornei um lobo solitario ate o ponto em que fui obrigado a fazer novas amizades

gente chata bebada e idiota bons companheiros naquele idade agente é meio doente totalmente inconsequente e pobre o que nos leva a experimentar todo e qualquer tipo de bebida barata e forte quando damos sorte paramos na casa de um amigo que tem um pai que gosta de bebida e tem um bar cheio de coisa boa

lembro de toma cachaça com coca sem gelo
lembro de toma whisky importado quando se usava a expressao whisky importado
lembro de toma cunhaque do faustao e vomitar em seguida
lembro de toma tequila e cerveja alternadamente como se a cerveja fosse agua
lembro de toma absinto e alguem me dizer vai com calma

eu me divertia um bocado com esse pessoal e numa noite dessas saindo em uma festa improvavel no meio das ferias de inverno encontrei a minha colega que namorava meu colega que por sua vez estava viajando com a familia para um lugar longinquo

na volta das aulas eu falei em tom de piada para minha vizinha de mesa como tu foi capaz de trair meu amigo

ela subitamente congelou e entrou em panico da sua boca sairam as palavras como foi que tu descobriu

pronto o que voce faz nessa situaçao

eu disse conta pra ele antes que eu conte eu nao quero contar entao conta antes mas se tu nao contar serei obrigado

quando ele voltou o primeiro dia se passou e ela nao contou nada eu disse conta no segundo dia ela nao contou de novo e antes que eu tomasse alguma atitude outro amigo deu a noticia

olha nao sei como te falar mas voce é corno

acontece que ele descobriu outra traiçao essa pior porque era com um cara da outra turma eu fiquei indignado e disse meu amigo nao foi a unica vez que isso aconteceu

confesso que senti uma pontinha de alegria porque recuperaria mais um amigo agora um de fe um amigo de longa data solteiro novamente so que ele perdoou a menina e eles continuaram namorando escondido nao queria ficar com a fama de corno manso e quem acabou se fodendo na historia foi o cara que contou a traiçao e entrou na lista negra da namorada

eu continuei solteiro e aos poucos fui me tornando um alvo da sociedade deve ter algo errado com ele qual o problema desse guri como alguem dessa idade continua assim sem nunca ter namorado ninguem

estava fadado a morrer sozinho todos caminhos apontavam para isso a unica pessoa que parecia nao se importar era eu ate comunidade no orkut fizeram pra tentar encontrar uma namorada pra mim

pra que tanto desespero ate parece que esses namoricos juvenis duram pra sempre

pior que alguns duram mesmo fico assustado quando encontro casais que estao juntos desde aquele epoca e por mais que ache bonitinho eu sinto um pouco de pena deles eu sei que soa babaca nao posso fazer nada infelizmente

o namoro da traiçao ate que durou um bom tempo mas mais cedo ou mais tarde iria ter um fim

e eu sim eu perdi o grande amor da minha vida ela tava ali no meio dessa bagunça adolescente agente so nao se enxergava agente nunca tinha nem conversado a melhor parte é que ainda temos todo o tempo do mundo pra se ama

o ultimo drink

tomo um gole da bebida servida no meu copo
respiro

damos risadas muitas risadas
lembramos casos absurdos coisas que nem o mais louco teria coragem de inventar
historias tao mal contadas que so podem ser verdades
que sao obra de alguma graça divina que nos colocou no mesmo caminho
obrigado senhor

assistimos videos
eles sao toscos e deprimentes
registros de ontem de 5 e de 10 anos atras
devem ter outros ainda mais antigos escondidos
as fotos nem sei onde estao guardadas
eu gravo nossa conversa para que ela nunca acabe

meu semblante sereno e minha fala mansa escondem o desespero que toma conta do meu corpo
o formigamento nas maos o frio que sinto na espinha

daqui a pouco eu nao vou estar mais aqui
vou caminhar lentamente pela calçada molhada
se tiver sorte escaparei da chuva
sao apenas alguns passos ate o meu predio
tao pertinho desse onde ja morei tambem

a diferença é que depois de hoje eu ficarei sozinho
nao por um dia uma semana ou ate um semestre
sabe se la por quanto tempo vai ser

sempre achei que era viciado nessa rua
nessa vizinhança
ja tentei sair mas sempre acabo voltando

finalmente me dei conta que não é o lugar
nao sao os bares
nao é o movimento de gente
nao sao as festas que nunca mais fui
nao é nada disso

é meu amigo
meu melhor amigo
que esta indo embora

a hora de ir embora

o ultimo cigarro tem valor fisico quantico material e tem o valor sentimental o ultimo amigo um ultimo abraço um ultimo beijo para aqueles mais apaixonados trago seu amor de volta se voce me der a chance de dar mais uma tragada

na cabeça do joel a hora de ir embora tinha finalmente chegado nao por causa dos raios de sol que batiam na cara dos copos quebrados ou das pessoas jogadas pelos cantos tentando cumprir o papel de ser humano e falhando nada disso tinha importancia o que fez ele ir embora foi o maldito ultimo cigarro que teimou em acabar

joel mirou a saida e se pos de pe acontece que levantar é uma coisa sair caminhando é outra bem diferente ele seguia o embalo de seus passos elogiosamente pouco hesitantes para alguem que via o mundo sumir em suas piscadas cada vez mais longas tela preta e silencio se deu conta que so enxergava flashes em meio a escuridao

teve medo do que podia acontecer e parou por um segundo sair caminhando assim pela rua era loucura e a bem da verdade ele nem sabia como iria para seu apartamento fez força para andar um pouco mais e chegou a porta nao tinha certeza do que fazer olhou de volta para a sala e viu aquelas pessoas que faziam exatamente aquilo tentavam cumprir o velho papel de ser humano e falhavam eram pessoas que ele nao enxargava ha minutos atras quando ainda podia enxergar o tempo inteiro

a rua lhe dava medo essas pessoas lhe davam medo e ele mesmo lhe causava medo era um beco com varias saidas e todas terriveis sua cabeça estava confusa e teve o impulso de olhar para o relogio

se nao entendia nada a coisa passou a ficar pior ao ver que eram treze horas e quinze minutos uma serie de porra caralho puta que pario e similares ficaram presos na sua boca a garganta nao deixou que nada saisse e a cabeça começou a explodir engolia os xingamentos e fazia o coraçao acelerar logo a testa doeu uma dor forte e um zumbido insuportavel o levou ao completo desespero apertava as maos nos ouvidos com força e entao fechou os olhos e escorregou ate o chao quietinho sem qualquer intençao de incomodar desejou nao ter feito nada nessa noite nem em qualquer outra queria acordar dormindo na sua cama

sentiu frio

os outros estavam que nem ele pedir ajuda era certamente mais perigoso do que ficar calado sofrendo sozinho ate se tornar invisivel desaparecer desse mundo e ir para aquele outro lugar joel roçava os dedos na grama molhada e tinha um belo sol para ele e menina ao seu lado alguem que ele jura conhecer de verdade que nao faz parte so dessa miragem ele olha pro ceu pra menina e isso define a felicidade

a beleza pura algo que ele nao encontra em nenhum outro lugar e por que ele nao pode ficar para sempre aqui se sente tao leve que começa a flutuar ganhar o ceu ao ponto de alcançar as nuvens olha la do alto e ve tudo e nao sente o medo de altura abre um sorriso e procura menina

        ela tambem deve saber voar deve estar escondida junto com os anjos devem estar por aqui é bom sentir o vento quem sabe ele me sopra para algum lugar onde diabos esta a menina

        eu esperava ouvir harpas aqueles violoes grandes e um tipo de banjo iguais ao que tem pintado na parede da igreja perto da casa da minha mae uma musica classica um coral quem sabe algo alem do nosso alcance como um recital de uma sinfonia de beethoven ou um coral cantando bohemian rhapsody o cenario quando entrei na nuvem foi diferente

eram com essas as palavras que joel descreveria o que pensou se fosse submetido a algum tipo de interrogatorio transgalatico e daria prosseguimento contando o que viu dentro da nuvem poderiam ver pela sua palpebra pelas suas maos suadas que estava nervoso mas falava absolutamente a verdade e contaria tudo que se passou acontece que aqueles homens nem sempre querem saber a verdade

joel abriu os olhos e enxergou branco era o teto estava de volta levantou um pouco a cabeça a sala tinha menos pessoas eram poucas agora nao sentia suas pernas nem seus braços era como se nao estivesse dentro do seu corpo os raios de sol refletiam nos copos quebrados e formavam uma cena bonita ele ficou um tempo escorado na parede com as pernas esticadas no chao respirou fundo para levantar finalmente pronto para encarar o mundo para conviver com pessoas e procurar a menina

do outro lado

o quarto era escuro um pouco escuro demais e quando eu acendi a luz ficou muito claro e nao tinha nenhum tipo de iluminaçao intermediaria fui ate o banheiro entao e deixei a lampada florecente branca ligada e a porta aberta a melhor soluçao que consegui uma soluçao ruim eu sei eu precisava de um clima mais quente nem tudo é perfeito paciencia

voltei e me sentei na cama eu tava cansado e deixei o corpo escorregar e fiquei um tempo deitado pouco tempo logo me levantei pois a ansiedade me obrigava a me mexer repeti essa sequencia de sentar deitar e levantar algumas vezes me olhando por todos os espelhos que vinham da parede do teto de todos os lugares

eu esperava a pessoa que subiria pela escada alguem que nao sei o nome que nao sei o rosto que nao sei nada assim como ela nao fazia ideia do que a esperava nos conhecemos na internet e trocamos algumas mensagens nao tinha nada de amor da minha vida nessa historia apenas dois desconhecidos marcando de tranzar em um motel barato

eu nao confio nas fotos pelo simples motivo de olha as fotos que eu mandei pra ela as fotos que eu postei alguma vez na vida nas redes sociais e é tudo mentira eu nao sou tao legal quanto aparento ou nem mesmo pareço ser legal imagina o quao chato eu sou eu comecei a desconfia que nao foi uma boa ideia faze isso e nada dessa pessoa chega vou acaba pagando esse quarto so pra fica aqui sofrendo a sensaçao nao é boa eu juro que preferia ta na minha casa na minha cama

tudo que se passa pela minha cabeça parece me leva a irrefutavel conclusao de sempre eu fiz merda eu tava muito injuriado e pronto pra ir embora quando ouvi o barulho da garagem se abrindo do salto alto caminhando e subindo os primeiros degrais da escada

esses segundos pareceram durar milenios e eu fiquei ali esperando com uma cara de idiota ate que finalmente se revelou uma loira maravilhosa de seios fartos e shortes curtos uma menina nova provavelmente na casa dos 20 anos nunca se sabe

ela nao fez perguntas apenas veio na minha direçao e me puxou pelo pescoço nos demos um beijo agressivo e ela me empurrou pra cama tirando sua blusa jogando ela longe o mesmo gesto com o sutia eu tambem tirei minha camisa logo estavamos nus e eu surpreso com tudo aquilo que se apresentava na minha frente e com medo de nao corresponder as expectivas uma bobagem sem fundamento que se mostrou completamente verdadera pois meu desempenho foi bem apressado digamos assim

calma tem mais eu disse pra ela

ela nao falava nada apenas me olhava da cabeça aos pes e parecia concordar eu li nos seus olhos a noite é uma criança ainda esta cedo ela mal sabe caminha ainda muita coisa vai acontece

enquanto nao havia condiçoes de me reanima eu tentei conversa eu puxei papo sobre diversas coisas como o conflito na palestina sobre pastel de carne com ovo que é muito melhor que sem ovo sobre a saudade que eu tinha de dormi depois do almoço mas nada parecia interessante o suficiente pra merece uma resposta ou uma simples opiniao ela so me olhava

enfim estava pronto para mais um round e dessa vez foi muito melhor um verdadero espetaculo digno de oscar ate pela elasticidade de ambos e capacidade de alternar posiçoes e parecia que jamais acabaria estavamos afundados no prazer entramos em um mundo paralelo em meio a todos aqueles espelhos eu me confundia com tanto reflexo e nao sabia mais se a verdade era o que estava acontecendo na cama na mesinha no chao ou no teto que grandissimo teto era esse

parece brincadera mas a coisa ficou realmente muito confusa eu tentava me mexe para um lado e meu corpo ia pro contrario eu pensava em um movimento e fazia outro ate que comecei a toca nas minhas pernas no meu peito e nao sentia nada nem na mao nem em qualquer lugar relaxei um pouco a cabeça e me deitei interrompendo o sexo que a essa altura apenas acontecia sem qualquer tipo de açao voluntaria

fechei os olhos por um segundo e respirei fundo ao menos parecia que era uma respirada funda nao sentia os pulmao fiquei com um medo imenso de abrir os olhos um medo imenso de ser tudo loucura da minha cabeça e quando finalmente tomei coragem eu vi o meu proprio corpo adormecido e pelo espelho esse meu novo eu nao existia apenas aquele corpo jogado em uma cama de motel sozinho

eu nao sabia se ia embora ou esperava eu acordar meu instinto me mandou desligar a luz do banhero aquela claridade branca e fria nao podia ajudar ninguem é isso que eu vou fazer por um fim nessa iluminaçao bagaceira e bem na hora que eu apertava o interruptor a luz permaneceu ligada e eu comecei a ouvir os passos do salto alto chegando pelas escadas chegando com um barulho assustadoramente alto

me escondi no canto do banheiro fechei os olhos abri e continuei no mesmo lugar torci para que tudo acabasse torci para que ninguem viesse apagar a luz eu nao podia mais sair dali e tinha medo de me olha no espelho da pia eu tinha medo que eu nao acordasse na cama eu ainda to com medo

EU COMI O AMOR

eu não tenho medo de morrer

minha vó me disse isso enquanto fazia carinho na barriga da cadela com uma mão e pegava uma batata frita com a outra a melhor batata frita do mundo diga se de passagem ela frita tira da panela deixa secar e depois frita de novo fica muito crocante

nao sei se é uma afirmação válida pela convenção do uso das palavras a qual abomino então posso afirmar sem medo de ser feliz assim como minha vó não tem medo da morte a vida é crocante que nem essa batata frita

ela seca algumas vezes o nosso coração e até dá um certo desespero imensurável que faz a gente pensa que tá tudo perdido e que não tem outro caminho pra ser seguido aquela história de que nós somos responsáveis pelas nossas escolhas e talvez até hoje eu tenha escolhido tudo errado mas calma tem que botar na banha de novo e esperar chegar no ponto

mesmo assim ainda não tá pronto essa mesma batata crocante só fica deliciosa depois que minha vó coloca sal e coloca muito sal capaz de entupir as veias da metade da população da pequena cidade onde ela mora mesmo assim não o suficiente pra entupir as veias dela e nem da cadela que eu sei que ela dá comida pra ela

eu pensei então que cada batata frita merecia um nome próprio e enquanto mordia e mastigava dizia adeus zuleide tchau roberta até mais ver samanta você é muito especial marta é nessa hora da despedida que vem a coragem pra abrir o coração e dizer aquelas coisas bonitas que estavam guardadas às sete chaves e a gente com vergonha de falar pura bobagem eu te amo debora

a batata frita dá sede ou o excesso do sal provavelmente mesmo assim não me levanto pra me servir de bebida eu falo pra vó pra ela não se preocupar que ela não vai morrer não antes de terminar sua missão na terra eu falo como um messias que veio trazer luz e sabedoria ela me ouve atentamente e concorda como que esperando eu dizer qual é a missão

na verdade ela ta concluída porque não consigo imaginar alguma coisa mais importante do que criar uma família dar amor pros filhos e pros netos e ver todo mundo bem tirando o filho que morreu mas não é culpa dela então eu penso na batata frita e talvez seja a hora de abrir uma grande lanchonete e vende essa batata e mostra pro mundo como ela é boa

mas não essa batata é só nossa pra comer ela você precisa entrar na     minha família

eu tento pensar em quantas vezes a vó fez a batatinha pra mim quantas vezes ela me disse no telefone que a batatinha tava esperando e quantas vezes eu falei que era a melhor batata do mundo e no final só cheguei em uma conclusão

vó eu te amo igualzinho sua batata frita

o rei do sorvete

a dona antonia saiu um dia pra rega as planta nao sei porque insistia em tenta planta alguma coisa nesse deserto e no caminho caiu no chao e nao levanto mais o seu jose viu de longe e grito baixinho no volume mais alto que conseguia levanta mulher mas nao adianto

agora aqui esta o homem em sua cadera de balanço quebrando o silencio com sua tosse seca tao seca quanto o ar que ele e os filhos dessa terra esquecida respiram

a cadera balanço quase nao balança mais seu jose amarrou uma cordinha na parede na verdade prendeu no prego e ali ele puxa nas vezes que reune força pra estica o braço

o verao é um inferno de calor e ate o vento ao inves de ajuda atrapalha de tao quente que é parece que sai de dentro de um vulcao e vem para bem aqui no meio desse vilarejo dessas casas pequenas e dessa gente sofrida

ao menos costumava ser assim mas tudo mudou desde a chegada do senhor francisco o homem do sorvete

crianças adultos e ate os de mais idade vem pra rua principal faze fila na frente da barraquinha desse homem da onde ele tira bolas congeladas com sabor de fruta e tambem sabor de chocolate e de creme e

serve junto com uma casquinha crocante que se quebra na boca

o que ele chama de sorvete é um negocio que congela o cerebro e a boca pequena dizem que congela também a alma

isso é coisa do demonio diz a velha raimunda quem come isso nao vai pro ceu

nao se atreva a perguntar porque é coisa do diabo que a resposta sera entao come e vai pro lado do belzebu seu pecador

mas tambem tem quem diz que esse é um genio como é o caso do seu olavo e outros mais empolgados

acreditam que ele é mais do que isso é o proprio deus

ele transforma agua em sorvete

a verdade é que francisco nao é bobo e pelo seu sorvete ele cobra um preço alto nao caro demais ate porque aqui ninguem teria dinheiro para pagalo muito mas um preço que faz dele alguem bem de vida pronto pra construi sua propria casa

francisco chego na cidade faz pouco tempo nao tem nem um mes ninguem sabe de onde ele saiu e ele mesmo nao fala muito sobre isso desconversa joga palavras soltas no ar diz que é de longe e que nem lembra mais da onde porque faz tanto tempo que saiu de casa e agora so anda pra la e pra ca no seu chevete ate que um dia parou na cidade e nao saiu mais eu gostei desse lugar repete sem parar

nao se sabe exatamente de quem foi a ideia mas foi uma das grandes ideias surgidas nos ultimos tempos talvez a maior delas hoje vai ter competiçao de sorvete

os mais gordos da cidade e tambem alguns magros e ainda uma porçao de meninas e é bom nao subestima ninguem estao dispostos em um banco de madeira grande suficiente pra comporta todo mundo e nao se quebra no meio todos esperam ganha o seu pote de mais ou menos cinco quilo de sorvete quem pesou foi o proprio francisco calculando na palma da sua mao

o prefeito da cidade tambem veio assisti e mais do que isso torce pelo seu filho o gordo norberto que esta sentado em uma das pontas estrategicamente posicionado pra ser o primero a recebe seu pote

a regra é clara so pode começa a come depois que cada um ganha seu sorvete e pra participa todos tiveram que paga o equivalente a dez casquinhas o grande vencedor vai te direito de come sorvete de graça por um mes

que comecem os jogos

francisco distribui os potes todos sabor uva que é mais facil de come e junto com os potes uma colher nao muito grande os competidores se atracam de forma ferroz e ate violenta engolindo sem mastiga e mal sentindo o sabor

alguns no afa de ganha passam dos seus limites e começam a vomita estava combinado isso nao podia quem vomita é desclassificado por isso tem aqueles que nao deixam o vomito sai da boca e ficam ali sofrendo coitados é uma perda de tempo ja que tambem nao conseguem mastiga

depois de poucos minutos quatro diligentes ja estao fora da disputa sobrando outros nove e é dificil fazer qualquer aposta e por isso mesmo tanta gente coloca seu dinhero em disputa

vai ganha o gordo norberto muitos acreditam pensando que o prefeito influenciaria no resultado e portanto essa é uma aposta que paga pouco tendo que ser dividida por uma porçao

a maria menina de nove anos e fininha tal qual uma vareta parece ser o grande azarao so duas pessoas confiaram nela sera que é hoje que ficam milionarios

outro apontado como favorito é o velho carliano pela sua reconhecida demencia e possibilidade de engoli todo sorvete de uma vez so o que acabou se mostrando equivocado porque carliano acabo vomitando quando estava perto de vence a prova

o sorvete ja ia derretendo dentro do pote quando so sobravam quatro competidores aptos junto do gordo norberto e da menina maria ainda tinha o jonas um rapaz de meia idade e um dos maiores comerciantes da cidade que na ocasiao vestia a pexa de ganancioso e tambem o pequeno luiz neto da dona antonio e do seu jose

jose acompanhava da sua cadera de balanço e torcia pelo neto torcia pela maior alegria e maior conquista da historia da sua familia que estava tao perto de acontece logo hoje que fazia um mes que sua mulher antonia faleceu logo hoje o luizinho podia se torna o rei do sorvete

o jonas tambem vomito e sobraram apenas as crianças os miudos maravilha como ja começavam a ser chamados na cidade

quero ve alguem ganha desses menino disse o prefeito orgulhoso do filho e dos seus conterraneos e tem mais eu pago um mes de sorvete pra voces dois se deixa o norberto ganha e todo mundo aplaudiu ele

o prefeito nao sabia os motivos que faziam o luiz e a maria come daquele jeito e nenhum dinhero do mundo compraria a honra deles quando ouviram os aplausos eles começaram a come mais rapido e com mais vontade comeram comeram comeram e acabaram os dois com seus potes bem na mesma hora

soou a sirene do francisco aquela que anunciava o sorvete e as duas crianças combalidas cairam duras no chao

da sorvete pra elas alguem grito

o seu jose sentado na sua cadera juntou todas as forças pra berra levanta meu neto mas mais uma vez nao adianto de nada

a maria entao abriu os olhos mexeu o rosto devagar e com esforço se posto de pe o rei do sorvete era uma rainha

gelo

eu tremia os labios batia um dente no outro de manera tao intensa que parecia uma bela sinfonia de beethowen orquestrada pelo frio e pela hipotermia

a neve é uma delicia sempre quis brinca com ela faze um boneco e coloca uma cenoura no nariz dele enquanto as pobres crianças africanas morrem de fome mas nao imaginava que viver no meio da antartida seria assim

ou melhor eu imaginava mas nao tinha como prever o sentimento da extrema solidao de nao ter com quem falar de se comunicar apenas com pinguins e fingir que eles sao humanos e colocar nome em cada um que eu encontrava e eventualmente fugia de mim pois tem medo do meu tamanho e pensa que eu vou fazer igual a um lobo do mar que estraçalha os pequenos animais ao meio ja vi alguns sendo mortos é triste

ontem eu vi um urso polar nadando nadando muito ele é rapido mas esta cada dia mais cansado e com menos comida e eu nao sei se ele aguenta a travessia que precisa faze pra encontra uma foca e devora esse lindo animal

todos eles sao lindos e se comem e eventualmente morrem pelas maos do homem é o ciclo da biosfera e a humanidade se colocando acima de tudo e todos como sempre fizemos

eu nao sou um pesquisador e nem to vivendo uma aventura eu apenas fui largado de mao e esquecido ate pelo diabo nao que eu tenha pecados ate porque nao acredito nessa palavra nao desse jeito eu faço o bem eu sou do bem ja rezei mais de 100 pai nosso e acendi velas elas me aquecem nesse frio as vezes eu brinco de queima a ponta dos dedos

aprendi que nao posso coça a orelha nem o nariz e quase nada porque cai um pedaço é como se um rato roesse minha pele e é engraçado que o frio queima mais que o fogo das minhas velas e é incrivel que eu ainda esteja vivo e toda a vida é incrivel por natureza

no meio desse nada que é muito maior do que eu podia supor eu perdi o medo faz tempo depois de ter perdido tudo nao fazia mais muito sentido me amedrontar por qualquer coisa

agora eu brinco com a minha vida

deserto

caminhava por um deserto escaldante na companhia das minhas sandalias eu sempre odiei sandalias e me odiava por usalas naquele momento mas era a unica maneira de sobreviver sem queimar os pes ou enchelos de bolhas que se transformavam em feridas abertas e em pouco tempo os pes ficam tao podres que é melhor nao telos

eu nao sei como vim parar aqui

esse é o primero ponto e agora nao tem importancia alguma a unica coisa que quero é conseguir sair eu olho pro sol e tento me guiar por ele mas nao entendo nada dessas coisas e torço pra cair logo a noite pra chegar o frio e acabar com minhas alucinaçoes

hoje mais cedo eu avistei de longe um camelo e um senhor nao tenho ideia se era jovem ou velho e nem se era mesmo um homem mas uma pessoa e um camelo isso eu tenho certeza que vi e eu gritei socorro e eu gritei me ajuda gritei tambem em ingles e em todos os idiomas que eu sei dizer socorro e ajude mas nem o camelo nem o senhor me olharam eles continuaram caminhando lentamente longe de mim longe demais pra me ouvir e longe demais para eu alcançalos

o camelo sabe das coisas eu vou é atras deles eu pensei e ate tentei seguir seus passos mas entao uma tempestade de areia bateu e tudo sumiu eu me atirei no chao e quase fui soterrado

eu nao sei a quantos dias eu caminho e nem como ainda to vivo sem agua sem comida sem direçao

eu ja pensei em desistir algumas vezes e eu ja tentei desistir outras tantas mas entao alguma coisa dentro da minha cabeça diz sai daqui cara e eu me levanto e continuo afundando o pe na areia ja deixei minha mochila so carrego a roupa do corpo e um fio de esperança de achar agua ou de encontra uns nativos que me ajudem a sair daqui

vejo de longe arvores parecem coqueiros aquela visao cliche de uma alucinaçao é tao cliche que deve ser verdade entao eu acelero o passo ou algo parecido com isso e vou naquela direçao mas quanto mais eu caminho parece ficar mais longe ate que desaparece e eu olho pra todos os lados e so vejo montes e montes de areia

caio no chao

acordo no susto balançando acordo e estou dentro de uma gaiola puxado por um camelo e tem duas pessoas comigo todas com cara de dor e sofrimento assim como eu tambem devo estar

eles nao falam minha lingua nem nada quando eu tento puxar conversa um homem abre a boca e eu vejo que ele nao tem lingua alguma ele nao vai conseguir falar entao eu abro bem meus olhos pra ver o outro e noto que ele nao tem olhos

coloco minhas maos do lado da cabeça e percebo que minhas orelhas sumiram e percebo que nao escuto nada nem o vento tambem percebo que estou com o pescoço acorrentado e prefiria estar morto

o camelo caminha devagar ele nao tem pressa o senhor ao lado dele quem sabe aquele mesmo que eu vi antes usa um turbante ja gasto e tem um rosto muito feio cheio de cicatrizes ele ve que eu estou olhando atentamente pra ele e puxa uma faca enorme do bolso vem ate a gaiola chega bem perto de mim e fala e fala e fala

eu vejo que ele mexe a boca mas sera que ele nao entendeu que agora eu sou surdo provavelmente ele mesmo arrancou minhas orelhas que tipo de ser humano babaca é ele eu me agarro na grade e começo a fazer força como se fosse possivel quebrala como se fosse possivel fugir de tudo isso e voltar pra beira da praia