abriram as portas do inferno

abomino qualquer tipo de discurso de ódio que não seja o meu
detesto genocídios ineficientes

cala a tua boca

tu bem sabes que
censura é coisa de filho da puta
pura mãe brasileira

todos tem o direito de se expressar
ou existe algo mais respeitoso
que as últimas palavras antes do enforcamento

pode inclusive escolher a sua refeição derradeira
a sua mamadeira

me dá a mão
que te levo ao cadafalso

meu bem
discordo do teu ponto de vista
mas eu lutaria até minhas últimas forças
para que você morresse

lembre-se
se algo lhe despertar repulsa
jamais
questione que o problema está dentro de você

atire uma pedra
uma bomba
atômica de preferência
se você tiver muito dinheiro

não confie em ninguém
até mesmo o dono do banco
pode ser um comunista disfarçado

não diga nada
que eu ainda não sei
se disseres
é mentira
é delírio
és uma besta
demônio

se serves de consolo
toda dor é passageira
mas no inferno
até o vivo
já morreu

amém

Poetas de Marte

Passarinhos em grandes ninhos ocupam as árvores altas
Cantam
Um louco no celular caminha atordoado
Do outro lado, vem um marginal
Um skatista de braços tatuados atravessa a rua
Um homem enorme e obeso, seminu, esconde a cara embaixo de um boné

Uma estagiária se apressa para uma entrevista em outro emprego
Uma loira de meia idade, de terninho nesse calor

Um pipoqueiro empurra seu carrinho

Duas moças conversam
Seguem a passos curtos e rápidos
Uma delas é a louca que discute com o louco
Ela não está no celular
Se cruzam e não percebem
Ele segue discutindo
Escreve: tu é uma puta

Na passarela, entre os prédios do Ministério Público, um homem de gravata observa o rio

Uma tarrafa é arremessada no arroio
Os peixes insistem em nadar na água podre
Hoje vai ter sushi

Debaixo da ponte, um cachorro corre atrás de um rato
Seu dono observa e torce
Pega
Pega

Uma carro conversível, não sei o modelo, passa por cima

Nem parece que é inverno

foto: Leonel Albuquerque