Tratado sobre o final da infância

Sobe em um balanço um garoto trajando calça de moletom. Não é qualquer calça de moletom, ela é cinza, já um tanto surrada e, o principal, tem uma joelheira de couro (ou sintético, mais provável) em cada perna.

Ah, a joelheira. Os carrinhos na quadra de futebol, no corredor, no polícia e ladrão e no pega-pega. Uma calça sem joelheira era uma calça rasgada, furada, queimada. Uma calça com joelheira é a coisa mais feia do mundo e também um item de segurança obrigatório nos EPIs da infância.

Fazia tempo que eu não via uma dessas. Tanto tempo que nem me lembrava mais que elas existiam. Assim como minha infância.

Não que eu esteja velho, amadurecido, gordo, acabado, meio careca, sentindo cansaço depois de qualquer caminhada e desfalecendo após uma breve corridinha. Nada disso. Eu apenas não recordava esses tempos de brincar sem preocupação e com joelheira.
Uma nostalgia barata bateu quando vi o garoto, que não faço ideia de quem seja. Não me vi nele, apenas lembrei que já fui assim. Esguio (muito magro) e até desengonçado, era difícil me parar, ainda mais quando deslizava apoiado nos joelhos. Como as joelheiras trabalharam depois daquele gol na Copa de 98 em que o cara da Dinamarca saiu fazendo pose. No outro dia todo mundo imitou. Volta e meia eu usava uma calça sem joelheira e não me dava conta, o resultado era um joelho ralado e uma calça estragada. Tinha que costurar (ou colocar joelheira).

Os tênis que piscam continuam na moda, mas esses são uma coisa infantil. Paramos de usar cedo, é só para criança. A calça com joelheira, por outro lado, era parte do uniforme – e pelo visto continua sendo. As mães gostam, pois duram bastante. Os pais, não sei se tem opinião – na minha época o meu não tinha, eu acho. Se bem que hoje em dia deve ser diferente. Meu filho ou minha filha vai usar calça com joelheira e eu vou ensinar a deslizar.

Tento, mas não consigo lembrar qual foi minha última calça dessas. Quando usei pela última vez. Será que a joelheira ficou toda gasta e teve que ir pro lixo ou eu, no auge da maturidade, disse que não queria mais? Qualquer coisa que eu digo vai ser pura invenção. Então escolho o final que mais me agrada: era final da interséries. Fazia frio, como era de se esperar no auge inverno. Clássico, nossa turma contra a 141, o jogo empatado em 1×1, se encaminhando para o fim. O juiz marcou falta para eles, um lance perigoso, e o Betinho se preparou para dar um bico. Nosso goleiro medroso fugiu da bola, que por sorte bateu na trave. O chute foi tão forte que a bola espirrou para frente. O André correu e conseguiu pegá-la antes que saísse pela lateral. Eu disparei para o ataque e fiquei pedindo bola. O André avançou, ultrapassou o meio da quadra e, já perto da área, cruzou. Muito forte, muito comprido, não tinha como alcançá-la. Era o último lance e acabaria empatado. A bola ia direto para fora e nada poderia detê-la, não fosse o meu carrinho. Me atirei e por breves segundos o mundo parou. Eu, a joelheira e a bola, que acertei com a pontinha do pé esquerdo, vivenciamos uma parábola que ainda ecoa naquele ginásio. Gol. A bola foi direto para o fundo da rede. Eu fiquei ainda um tempo deitado e quando levantei reparei que a joelheira estava rasgada. Os moleques corriam pela quadra para comemorar. É campeão, é campeão. Ganhamos. Feito. É campeão. Aquela joelheira hoje está emoldurada em uma parede do ginásio.

foto Hudson Pontes

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