ANTES DAS CINZAS

Não foi assim pra chegar aqui.

Não me julgue mal (além da conta). Nunca pratiquei ato heróico (não o que você tem em mente como heróico).

Enfim, cheguei aqui.

Escuto os ruídos.
Vêm dos últimos a se manterem em pé.

Eu estou deitado na minha cama. Antes, caminhei por algumas quadras para ir até um café. Fila de espera. Fila de espera em uma cidade vazia e cheia de gente desesperada. Não estou desesperado. Não espero.

Um homem e uma mulher são capazes de dirigir um automóvel.
São capazes de escapar do pior horário e tranquilamente chegar antes para um merecido descanso.

Não sei se tivemos uma noite ontem. Fechamos as janelas, as cortinas e os vidros. Fizemos o que estava ao nosso alcance para não estar aqui.

Rumores.
Um velho morreu na quadra de basquete. Fazia sol, calor e ele capotou. Não tinha documentos, o conheciam por Pitanga.
Um minuto de silêncio pelo Pitanga.

Ainda vou chegar.
A estrada engarrafada. Devia ser proibido carro sem ar-condicionado, eu vou morrer aqui dentro, ela vai morrer comigo.

O rádio fala do carnaval. O desfile de carnaval. Os acidentes do carnaval. Os crimes e as mortes. Lembro da vizinha, contou que a filha foi assaltada.

Se eu fechar os olhos por alguns segundos e acelerar o carro e pisar o mais fundo possível e não tirar o pé por nada quem sabe a gente chega logo.

Não me parece prudente e eu não sou imprudente. Apesar de louco e capaz de entrar em pânico por causa de um louva-deus, palpitar o coração e senti-lo gritar (o coração grita), sou alguém bem pacato e normal.

Ontem mesmo assistimos a dois filmes e dormimos.

Uma comédia e um drama. Um ganhou o Oscar e o outro não chegamos a assistir – na verdade nunca existiu, desde o começo era apenas um filme e um dos bons, não sei por que tive de inventá-lo. Sim, fizemos mais coisas durante nossa noite mas não convém contar-lhe.

Cedo ela levantou e preparou o café da manhã. Eu não levantei para comer. Por fim, guardou as coisas na geladeira e o sanduíche dormiu. Eu venceria a competição da inutilidade e do sono. Não compita comigo. Não faça como o velho Pitanga. Eu estava na quadra. O Pronto Socorro é tão perto e não pude fazer nada. Tentamos. O mais magrelo disparou para pedir ajuda, nós gritamos socorro socorro e sapateamos ao redor do corpo (a essa altura já era um corpo). Demoraram um bocado para chegar. Acho que em todo arremesso vou me lembrar dele.

Quanto a estrada, que bela hora para sair. Bem aventurada seja a ideia de ter escapulido no meio da tarde. Bem aventurado o carnaval para os que dormem. Já não tenho pernas, vontade ou prazer em aproveitá-lo de outra forma. E mesmo assim estou aqui, como os que tentam a sorte nas horas finais, bêbado em minhas próprias ideias que não saem do lugar. Outra vez engarrafado.

Não quero que guardem as minhas cinzas e nem tenho um lugar especial para que elas sejam jogadas. Cemitério não. Não. Nesse ponto sou igual ao carnaval: não me enterram e ponto final.

Penso como deve ser pular o carnaval no céu. Que ideia boba.

Será que todos os dias são carnaval? Tomara que não. Não falo por mim, é que aí acabaria a graça.

Também é possível que não haja festa alguma. Nesse caso ou no outro seria o fim dos foliões.

Folião. Foliona. É gostoso de dizer. Não cessem. Continuem. Relutei em dizer isso mas é melhor assim, e o azar é meu. No fundo nem me importo, não passa de uma dramatização. É claro que eu preferia o silêncio mas a rua não é minha, eu que me meti aqui.

Esquece esse cara. É o último sopro antes das cinzas.

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