a brilhante ideia de ir em uma festa

nao foi por acaso que entrei naquela casa vermelha cor de sangue minha vizinha de gritaria e sussurros hospedeira de pessoas que formam filas e bebem e fazem barulho pessoas em uma sintonia completamente desconectada da minha

nessa noite porém eu recebi um convite de uma amiga e pensei por que não

aceitei a tortura que é entrar em uma festa

fomos direto para a pista eletrônica o espaço era diminuto todas as paredes e o teto pretos e ainda por cima baixo minha cabeça quase dava nas lâmpadas e o som muito alto estourava minha mente

existia um ritual para fazer parte daquele grupo um ritual simples que consistia em colocar drogas debaixo da lingua eu esperava pacientemente a loucura tomar conta do meu cérebro enquanto observava que os outros já estavam em outra órbita meu estimulo era diferente do deles e vim a descobrir que não fazia sentido em um ambiente tão perturbador

contudo nada acontecia comigo no máximo uma dor de cabeça causada pela batida

não bateu

esqueci meu celular em casa disse pro segurança moro aqui do lado já volto ele me deixou sair e confiscou minha identidade eu subi para meu apartamento e tive duas ideias a primeira tomar o resto do alucinógeno torcendo para que alucinasse e a segunda que eu fiz primeiro foi fumar um baseado e no momento em que acendi e prensei senti o plim em um gesto irresponsável coloquei o que ainda restava do gato felix dentro da boca peguei também a ponta e levei comigo

meu primeiro ato de volta à festa foi entrar no banheiro do andar de cima para mijar um lugar todo amarelo e com riscos nas paredes assim que abri meu ziper e botei o pingolim pra fora começou um terremoto tentei me segurar e por pouco não caí foi uma longa mijada até eu sair do banheiro

respirei fundo e desci as escadas parei na pista pop onde tocavam coisas impossíveis de lembrar e adolescentes com pouca roupa se beijavam dançavam e ensaiavam o coito eu claramente não fazia parte daquele grupo e me desloquei para a pista eletrônica onde as coisas ficavam ainda piores de fato agora havia batido e batido muito eu não conseguia ficar confortável tentava me concentrar olhando para qualquer coisa e essa coisa qualquer ganhava vida

fui pra área de fumantes o reduto das melhores pessoas das festas e ali puxei minha ponta plim de novo a grade da janela se mexeu me sentei e curti o que acontecia

de volta para dentro da casa me deparei com a figura de uma coruja pintada na parede uma bela coruja e eu tinha certeza que ela faria algum movimento olhei fixamente por um bom tempo e a coruja permanecia imóvel quando eu finalmente pensei em sair a desgraçada piscou um olho

as músicas eram atordoantes as pessoas se escoravam pelos cantos e permanecer nessa festa era um exercício de sobrevivência intercalando entre as pistas e me desvencilhando de toques de gente amalucada usando óculos escuros precisei novamente usar o banheiro agora fui naquele que ficava debaixo da escadaria e entrando dei de cara com o chão estava inundado e sujo caminhei devagar e mijei

as cenas pareciam repetir e repetir de repente as pessoas cada vez mais loucas era de manhã e ainda estávamos ali

vou embora disse para minha amiga

me espera respondeu

foram alguns minutos até que ela desse tchau para uma porção de gente e pegasse seu casaco na chapelaria – onde duvido que um único chapéu estivesse guardado

caminhamos os cerca de 30 metros até a entrada do meu prédio e subimos fumamos mais e ficamos olhando pela janela o dia tomar forma

conversamos sobre a vida e humildemente fizemos poesias que no momento pareciam primorosas

ela resolveu que precisava ir pra casa e desci para acompanhá-la até o táxi que fica logo atravessando a rua na outra esquina mal sabia eu que estava incapaz de agir socialmente e sem a noção de tempo e espaço quase fui atropelado por um ônibus que parecia longe assim que ela entrou no táxi eu corri de volta pra casa me tropeçando

meu quarto era o único lugar habitável do mundo não sei o quanto me debati antes de apagar formulando uma infinidade de nãos e porques de nunca mais entrar na maldita casa vermelha

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