soy celeste

chegamos ao chile em uma quarta o dia que os catedráticos da matemática consideram como o meio da semana

as primeiras horas foram promissoras o hostel era consumido por um budum talvez necessário para adormecer nas camas empilhadas fizemos nossas reservas para o mesmo quarto mas acabou que cada um teve que ficar separado sem problemas organizamos brevemente nossas coisas e nos encontramos no pátio para tomar cerveja comer pizza e assistir ao jogo do brasil no telão que havia sido instalado precariamente

assim que sentamos o brasil tomou um gol enquanto continuávamos a apreciar a gastronomia que nos era acessível o neymar entrava em colapso e encerrava seu expediente na copa américa

cansados nos preparamos para nos recolher fui para o meu quarto e sentei na cama

uma menina entrou e disse para o rapaz da cama debaixo

– hoje eu quero dormir contigo vou fazer tu me comer

uma segunda garota de peitos fartos que parecia ligada nos 220 volts surgiu perguntando quem queria ir pra festa pela primeira vez me manifestei para uma pessoa estranha e disse to dentro a menina que havia intimado o rapaz homossexual a possuí-la ficou envergonhada

– meu deus não imaginei que tu falasse português

pois falo e também sei me arrumar rápido quando desci meus amigos já estavam prontos e disseram que tinha uma festa sim é para lá que vamos

a festa acontecia em um velho teatro enorme e a entrada era de graça para mulheres e estrangeiros em resumo era o paraíso jamais voy a me olvidar do ritmo frenético das músicas cho cho chofer pare el taxi bailando bailando que foram basicamente as duas canções que embalaram a viagem nesse primeiro dia e em todos os outros fizemos como vidal e batemos a ferrari

tínhamos alguns objetivos o principal era disseminar a torcida organizada febre amarela uma iniciativa que surgiu já em território chileno e que se mostrou um verdadeiro sucesso pois ainda hoje passado mais de um ano amigos que lá fizemos usam a fatídica expressão em hashtags no seu instagram o outro propósito era difundir a expressão rootera algo que insistimos inclusive com falantes da língua inglesa

– rootera… from the nature… from the roots

nesse ponto acredito que não tivemos tanto êxito

desbravamos praticamente nada de santiago nos limitando ao bella vista e seus arredores nos intercalando entre três hostels que eram todos próximos ao cerro san cristobal um belíssimo monte que só fomos subir faltando aproximadamente poucas horas para partirmos

também deu tempo de conhecer valparaíso mi valpo querida inesquecível o espaço de chão mais rootera da viagem morada de gente amalucada e com ódio solene a santiasco não obstante era ainda terra de um prato típico que trocando em miúdos não passa de uma batata frita mal frita (não aprenderam com minha vó) molhada com queijo mal derretido e outras tranqueiras por cima

nosso quarto em valpo tinha um triliche e uma cama de casal chuliamos para que uma hermosa sueca dividisse o espaço com a gente mas o destino nos reservou carlitos no final das contas essa cigana que manda nas nossas vidas fez algo copero

na primeira festa aquela da quarta-feira havia uma tonelada de colombianos fazendo algazarra frente a vitória sobre o brasil os chilenos por óbvio estavam ensandecidos os argentinos lotaram o estádio sausalito onde também comparecemos para hinchar por nuestros hermanos de jamaica muitos brasileiros por tudo naqueles free walk tour descobrimos uma pilha de neozelandeses europeus e mais galerinha cool aqui e acolá haviam paraguaios y tambien mexicanos como nosso amigo michael que nos acompanhava no fatídico incidente

bebíamos na rua e uma viatura encostou e desceram ali carabineros armados até os dentes

– no se puede beber en la calle
– llegamos hoy no sabiamos
– brasilenos
– soy mexicano
– documientos

momentos de tensão

– pero esto no es calle – perguntou meu amigo apontando para pessoas que bebiam sentadas em um bar com cadeiras na rua
– si pero tienem permission

a essa altura nossa argumentação era invencível diferente do tigres time do coração do michael apaixonado por #10 gicnac e que depois da libertadores passou a torcer para o river plate vai entender esses caras

era lindo ver a confraternização das nações mas algo nos chamava a atenção onde estavam os uruguaios

assistimos a chile e uruguai o jogo do dedazzo do cavani no estádio nacional de santiago no primeiro tempo ficamos em meio aos chilenos e aceitamos o porro que nos foi oferecido por novos amigos de cara indigena mas no intervalo não nos aguentamos e descemos até o nível onde se encontravam os uruguaios eles não paravam um minuto faziam tanto barulho que deixaram os chilenos brabos mesmo que classificados antes do final do jogo a área foi isolada e sim ficamos lá presos junto aos cisplatinos sendo alvos de copos e outras besteiras atiradas pelos donos da casa

tivemos que esperar até o estádio ficar vazio para olha só que mundo pequeno sermos escoltados pelos carabineros até o metro

continuamos fazendo festa continuamos indo em bares e continuamos sem encontrar uruguaios que apesar de numerosos no estádio não davam as caras em nenhum outro lugar

já era quase véspera da nossa partida já havia se passado outra quarta com uma festa nos mesmos moldes da primeira só que dessa vez em uma velha fábrica abandonada a coisa só ficava melhor e fomos empolgados para mais uma noite de descontrole que demorava para ficar boa e o nos era dito o mesmo argumento de sempre

es muy temprano

nem ao menos chichichi lelele viva chile foi preferido nesse ambiente fugaz e infelizmente provamos o sabor do fracasso mas contudo porém entretanto existe aquele ditado e estávamos decididos a vivenciá-lo em nossas próprias peles eu sou brasileiro e não desisto nunca

juntamos um grupo composto por cariocas gaúchos e mineiros e perguntamos ao promoter da festa falhada se havia algum lugar para irmos

hay un after

o homem nos entregou cartões de visita e disse que com isso não pagaríamos entrada faltaram alguns pois segundo ele chicas no pagan

e lá fomos nós caminhando pelas ruas desertas em uma noite gélida com pouca roupa e dessa vez nem era possível infringir a lei pois não havia coisa alguma aberta para nos vender nada em determinado momento as meninas disseram que iriam para a casa – uma delas morava por lá – e quebraram em uma avenida nunca mais as vimos

seguimos com a esperança de que algo acalentador nos esperava quando chegamos próximo ao endereço todavia chegou a dar um frio na barriga

a festa parecia clandestina uma grande porta preta toda de ferro se abria furtivamente e as duas ou três pessoas da fila entravam espiadas onde diabos fomos nos meter a caminhada pela rua pareceu mais longa do que todo o restante da epopeia pois vacilávamos em avançar provavelmente esse era o ponto mais longe de bella vista que havíamos chegado bueno mesmo que tremendamente desconfiados decidimos que foda-se

abriram a porta

o segurança do outro lado não emanava um vibe positiva se é que você me entende e ele e seus companheiros fizeram cara feia para nossas cortesias queriam dar um jeito de nos arrancar dinheiro tiramos coragem sabe se lá de onde e batemos o pé ninguém iria desembolsar nada mas prometemos gastar em bebida lá em cima

aceitaram a derrota e nos mandaram entrar de vez

um corredor escuro nos conduzia até uma escada e a pouca roupa que eu usava já me fazia passar calor fui obrigado a tirar a camisa xadrez finalmente iniciamos a subida e cada degrau parecia levar para mais perto do inferno a umidade se mesclava a um abafamento absurdo e a expecativa para o que nos esperava lá em cima era assombrosa

foi pelo cheiro que ficou claro estávamos nada mais nada menos do que em um puteiro trash de quinta categoria sim a viagem não havia nos privado nem mesmo dessa experiência e só quando alcançamos o último lance e abrimos a porta é que irromparam os gritos dos apaixonados que tomavam seus tragos e rodeavam as poucas infelizes garotas

soy celeste
soy celeste
celeste soy yo

a brilhante ideia de ir em uma festa

nao foi por acaso que entrei naquela casa vermelha cor de sangue minha vizinha de gritaria e sussurros hospedeira de pessoas que formam filas e bebem e fazem barulho pessoas em uma sintonia completamente desconectada da minha

nessa noite porém eu recebi um convite de uma amiga e pensei por que não

aceitei a tortura que é entrar em uma festa

fomos direto para a pista eletrônica o espaço era diminuto todas as paredes e o teto pretos e ainda por cima baixo minha cabeça quase dava nas lâmpadas e o som muito alto estourava minha mente

existia um ritual para fazer parte daquele grupo um ritual simples que consistia em colocar drogas debaixo da lingua eu esperava pacientemente a loucura tomar conta do meu cérebro enquanto observava que os outros já estavam em outra órbita meu estimulo era diferente do deles e vim a descobrir que não fazia sentido em um ambiente tão perturbador

contudo nada acontecia comigo no máximo uma dor de cabeça causada pela batida

não bateu

esqueci meu celular em casa disse pro segurança moro aqui do lado já volto ele me deixou sair e confiscou minha identidade eu subi para meu apartamento e tive duas ideias a primeira tomar o resto do alucinógeno torcendo para que alucinasse e a segunda que eu fiz primeiro foi fumar um baseado e no momento em que acendi e prensei senti o plim em um gesto irresponsável coloquei o que ainda restava do gato felix dentro da boca peguei também a ponta e levei comigo

meu primeiro ato de volta à festa foi entrar no banheiro do andar de cima para mijar um lugar todo amarelo e com riscos nas paredes assim que abri meu ziper e botei o pingolim pra fora começou um terremoto tentei me segurar e por pouco não caí foi uma longa mijada até eu sair do banheiro

respirei fundo e desci as escadas parei na pista pop onde tocavam coisas impossíveis de lembrar e adolescentes com pouca roupa se beijavam dançavam e ensaiavam o coito eu claramente não fazia parte daquele grupo e me desloquei para a pista eletrônica onde as coisas ficavam ainda piores de fato agora havia batido e batido muito eu não conseguia ficar confortável tentava me concentrar olhando para qualquer coisa e essa coisa qualquer ganhava vida

fui pra área de fumantes o reduto das melhores pessoas das festas e ali puxei minha ponta plim de novo a grade da janela se mexeu me sentei e curti o que acontecia

de volta para dentro da casa me deparei com a figura de uma coruja pintada na parede uma bela coruja e eu tinha certeza que ela faria algum movimento olhei fixamente por um bom tempo e a coruja permanecia imóvel quando eu finalmente pensei em sair a desgraçada piscou um olho

as músicas eram atordoantes as pessoas se escoravam pelos cantos e permanecer nessa festa era um exercício de sobrevivência intercalando entre as pistas e me desvencilhando de toques de gente amalucada usando óculos escuros precisei novamente usar o banheiro agora fui naquele que ficava debaixo da escadaria e entrando dei de cara com o chão estava inundado e sujo caminhei devagar e mijei

as cenas pareciam repetir e repetir de repente as pessoas cada vez mais loucas era de manhã e ainda estávamos ali

vou embora disse para minha amiga

me espera respondeu

foram alguns minutos até que ela desse tchau para uma porção de gente e pegasse seu casaco na chapelaria – onde duvido que um único chapéu estivesse guardado

caminhamos os cerca de 30 metros até a entrada do meu prédio e subimos fumamos mais e ficamos olhando pela janela o dia tomar forma

conversamos sobre a vida e humildemente fizemos poesias que no momento pareciam primorosas

ela resolveu que precisava ir pra casa e desci para acompanhá-la até o táxi que fica logo atravessando a rua na outra esquina mal sabia eu que estava incapaz de agir socialmente e sem a noção de tempo e espaço quase fui atropelado por um ônibus que parecia longe assim que ela entrou no táxi eu corri de volta pra casa me tropeçando

meu quarto era o único lugar habitável do mundo não sei o quanto me debati antes de apagar formulando uma infinidade de nãos e porques de nunca mais entrar na maldita casa vermelha