deserto

caminhava por um deserto escaldante na companhia das minhas sandalias eu sempre odiei sandalias e me odiava por usalas naquele momento mas era a unica maneira de sobreviver sem queimar os pes ou enchelos de bolhas que se transformavam em feridas abertas e em pouco tempo os pes ficam tao podres que é melhor nao telos

eu nao sei como vim parar aqui

esse é o primero ponto e agora nao tem importancia alguma a unica coisa que quero é conseguir sair eu olho pro sol e tento me guiar por ele mas nao entendo nada dessas coisas e torço pra cair logo a noite pra chegar o frio e acabar com minhas alucinaçoes

hoje mais cedo eu avistei de longe um camelo e um senhor nao tenho ideia se era jovem ou velho e nem se era mesmo um homem mas uma pessoa e um camelo isso eu tenho certeza que vi e eu gritei socorro e eu gritei me ajuda gritei tambem em ingles e em todos os idiomas que eu sei dizer socorro e ajude mas nem o camelo nem o senhor me olharam eles continuaram caminhando lentamente longe de mim longe demais pra me ouvir e longe demais para eu alcançalos

o camelo sabe das coisas eu vou é atras deles eu pensei e ate tentei seguir seus passos mas entao uma tempestade de areia bateu e tudo sumiu eu me atirei no chao e quase fui soterrado

eu nao sei a quantos dias eu caminho e nem como ainda to vivo sem agua sem comida sem direçao

eu ja pensei em desistir algumas vezes e eu ja tentei desistir outras tantas mas entao alguma coisa dentro da minha cabeça diz sai daqui cara e eu me levanto e continuo afundando o pe na areia ja deixei minha mochila so carrego a roupa do corpo e um fio de esperança de achar agua ou de encontra uns nativos que me ajudem a sair daqui

vejo de longe arvores parecem coqueiros aquela visao cliche de uma alucinaçao é tao cliche que deve ser verdade entao eu acelero o passo ou algo parecido com isso e vou naquela direçao mas quanto mais eu caminho parece ficar mais longe ate que desaparece e eu olho pra todos os lados e so vejo montes e montes de areia

caio no chao

acordo no susto balançando acordo e estou dentro de uma gaiola puxado por um camelo e tem duas pessoas comigo todas com cara de dor e sofrimento assim como eu tambem devo estar

eles nao falam minha lingua nem nada quando eu tento puxar conversa um homem abre a boca e eu vejo que ele nao tem lingua alguma ele nao vai conseguir falar entao eu abro bem meus olhos pra ver o outro e noto que ele nao tem olhos

coloco minhas maos do lado da cabeça e percebo que minhas orelhas sumiram e percebo que nao escuto nada nem o vento tambem percebo que estou com o pescoço acorrentado e prefiria estar morto

o camelo caminha devagar ele nao tem pressa o senhor ao lado dele quem sabe aquele mesmo que eu vi antes usa um turbante ja gasto e tem um rosto muito feio cheio de cicatrizes ele ve que eu estou olhando atentamente pra ele e puxa uma faca enorme do bolso vem ate a gaiola chega bem perto de mim e fala e fala e fala

eu vejo que ele mexe a boca mas sera que ele nao entendeu que agora eu sou surdo provavelmente ele mesmo arrancou minhas orelhas que tipo de ser humano babaca é ele eu me agarro na grade e começo a fazer força como se fosse possivel quebrala como se fosse possivel fugir de tudo isso e voltar pra beira da praia

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