gelo

eu tremia os labios batia um dente no outro de manera tao intensa que parecia uma bela sinfonia de beethowen orquestrada pelo frio e pela hipotermia

a neve é uma delicia sempre quis brinca com ela faze um boneco e coloca uma cenoura no nariz dele enquanto as pobres crianças africanas morrem de fome mas nao imaginava que viver no meio da antartida seria assim

ou melhor eu imaginava mas nao tinha como prever o sentimento da extrema solidao de nao ter com quem falar de se comunicar apenas com pinguins e fingir que eles sao humanos e colocar nome em cada um que eu encontrava e eventualmente fugia de mim pois tem medo do meu tamanho e pensa que eu vou fazer igual a um lobo do mar que estraçalha os pequenos animais ao meio ja vi alguns sendo mortos é triste

ontem eu vi um urso polar nadando nadando muito ele é rapido mas esta cada dia mais cansado e com menos comida e eu nao sei se ele aguenta a travessia que precisa faze pra encontra uma foca e devora esse lindo animal

todos eles sao lindos e se comem e eventualmente morrem pelas maos do homem é o ciclo da biosfera e a humanidade se colocando acima de tudo e todos como sempre fizemos

eu nao sou um pesquisador e nem to vivendo uma aventura eu apenas fui largado de mao e esquecido ate pelo diabo nao que eu tenha pecados ate porque nao acredito nessa palavra nao desse jeito eu faço o bem eu sou do bem ja rezei mais de 100 pai nosso e acendi velas elas me aquecem nesse frio as vezes eu brinco de queima a ponta dos dedos

aprendi que nao posso coça a orelha nem o nariz e quase nada porque cai um pedaço é como se um rato roesse minha pele e é engraçado que o frio queima mais que o fogo das minhas velas e é incrivel que eu ainda esteja vivo e toda a vida é incrivel por natureza

no meio desse nada que é muito maior do que eu podia supor eu perdi o medo faz tempo depois de ter perdido tudo nao fazia mais muito sentido me amedrontar por qualquer coisa

agora eu brinco com a minha vida

deserto

caminhava por um deserto escaldante na companhia das minhas sandalias eu sempre odiei sandalias e me odiava por usalas naquele momento mas era a unica maneira de sobreviver sem queimar os pes ou enchelos de bolhas que se transformavam em feridas abertas e em pouco tempo os pes ficam tao podres que é melhor nao telos

eu nao sei como vim parar aqui

esse é o primero ponto e agora nao tem importancia alguma a unica coisa que quero é conseguir sair eu olho pro sol e tento me guiar por ele mas nao entendo nada dessas coisas e torço pra cair logo a noite pra chegar o frio e acabar com minhas alucinaçoes

hoje mais cedo eu avistei de longe um camelo e um senhor nao tenho ideia se era jovem ou velho e nem se era mesmo um homem mas uma pessoa e um camelo isso eu tenho certeza que vi e eu gritei socorro e eu gritei me ajuda gritei tambem em ingles e em todos os idiomas que eu sei dizer socorro e ajude mas nem o camelo nem o senhor me olharam eles continuaram caminhando lentamente longe de mim longe demais pra me ouvir e longe demais para eu alcançalos

o camelo sabe das coisas eu vou é atras deles eu pensei e ate tentei seguir seus passos mas entao uma tempestade de areia bateu e tudo sumiu eu me atirei no chao e quase fui soterrado

eu nao sei a quantos dias eu caminho e nem como ainda to vivo sem agua sem comida sem direçao

eu ja pensei em desistir algumas vezes e eu ja tentei desistir outras tantas mas entao alguma coisa dentro da minha cabeça diz sai daqui cara e eu me levanto e continuo afundando o pe na areia ja deixei minha mochila so carrego a roupa do corpo e um fio de esperança de achar agua ou de encontra uns nativos que me ajudem a sair daqui

vejo de longe arvores parecem coqueiros aquela visao cliche de uma alucinaçao é tao cliche que deve ser verdade entao eu acelero o passo ou algo parecido com isso e vou naquela direçao mas quanto mais eu caminho parece ficar mais longe ate que desaparece e eu olho pra todos os lados e so vejo montes e montes de areia

caio no chao

acordo no susto balançando acordo e estou dentro de uma gaiola puxado por um camelo e tem duas pessoas comigo todas com cara de dor e sofrimento assim como eu tambem devo estar

eles nao falam minha lingua nem nada quando eu tento puxar conversa um homem abre a boca e eu vejo que ele nao tem lingua alguma ele nao vai conseguir falar entao eu abro bem meus olhos pra ver o outro e noto que ele nao tem olhos

coloco minhas maos do lado da cabeça e percebo que minhas orelhas sumiram e percebo que nao escuto nada nem o vento tambem percebo que estou com o pescoço acorrentado e prefiria estar morto

o camelo caminha devagar ele nao tem pressa o senhor ao lado dele quem sabe aquele mesmo que eu vi antes usa um turbante ja gasto e tem um rosto muito feio cheio de cicatrizes ele ve que eu estou olhando atentamente pra ele e puxa uma faca enorme do bolso vem ate a gaiola chega bem perto de mim e fala e fala e fala

eu vejo que ele mexe a boca mas sera que ele nao entendeu que agora eu sou surdo provavelmente ele mesmo arrancou minhas orelhas que tipo de ser humano babaca é ele eu me agarro na grade e começo a fazer força como se fosse possivel quebrala como se fosse possivel fugir de tudo isso e voltar pra beira da praia